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ÍNDICE

Posted by Josemar Bessa on Segunda-feira, Dezembro 07, 2009 , under | comentários (0)


ORAÇÃO DO PAI NOSSO - CALVINO

Posted by Josemar Bessa on Quarta-feira, Junho 03, 2009 , under | comentários (0)



PAI NOSSO QUE ESTÁS NOS CÉUS
A primeira regra em toda oração consiste em apresentar-se a Deus em nome de Cristo, pois neste nome ninguém pode ser-lhe desagradável.
Ao chamar a Deus de Pai nosso, já pressupomos o nome de Cristo.
Mais ninguém no mundo é digno de apresentar-se a Deus e de aparecer perante seu rosto. Este bom Pai celestial, para livrar-nos de uma confusão que inevitavelmente nos turbaria, nos deu como mediador e intercessor a seu Filho Jesus. Detrás dos passos de Jesus podemos aproximar-nos a Ele confiadamente, tendo plena certeza de que não será rejeitado nada do que peçamos em nome deste Intercessor, pois o Pai não pode negá-lhe nada.
O trono de Deus não é só um trono de Majestade, senão também um trono de graça, ante o qual podemos, em nome de Jesus, ter o privilégio de comparecer livremente para obtermos misericórdia e acharmos graça quando a necessitemos. De fato, como temos o mandamento de invocar a Deus, e a promessa de que todos os que o invocar serão ouvidos, temos também o mandamento concreto de invocá-lo em nome de Cristo, e nos foi feita a promessa de que obteremos tudo o que pedirmos em seu nome.
O agregar que Deus, nosso Pai, está nos céus, tem como finalidade expressar sua Majestade inefável (a qual nosso espírito, a causa de sua ignorância, não pode compreender de outro modo), pois para nossos olhos não existe realidade mais bela e mais grandiosa que o céu.
A expressão nos céus quer dizer que Deus é excelso, poderoso e incompreensível. E quando ouvimos esta expressão devemos elevar nossos pensamentos, cada vez que se menciona a Deus, a fim de não imaginar a este respeito nada de carnal nem terreno, nem medi-lo segundo nossa compreensão, nem regulamentar sua vontade segundo nossos desejos.

SANTIFICADO SEJA TEU NOME
Mencionar a Deus é tributar aquele louvor com o qual nós o honramos por suas virtudes, ou seja: pela sua sabedoria, sua bondade, seu poder, sua justiça, sua verdade, sua misericórdia.
Pedimos, pois, que a Majestade de Deus seja santificada por suas virtudes. Não é que possa aumentar ou diminuir em si mesma, senão que deve ser tida como santa por todos, deve ser reconhecida e enaltecida; devemos considerar como gloriosas —pois assim são— todas as ações de Deus, faça o que fizer. De modo que
se Deus castiga, ainda nisto devemos considerá-lo justo; se perdoar, devemos considerá-lo misericordioso; ao cumprir suas promessas, devemos considerá-lo veraz. E já que sua glória se reflete em todas as coisas e brilha nelas, é necessário que ressoem seus louvores em todos os espíritos e por todas as línguas.

VENHA O TEU REINO
O Reino de Deus se manifesta ali onde Deus, por meio de seu Espírito, governa e dirige aos seus, a fim de mostrar, em todas suas obras, as riquezas de sua bondade e misericórdia. A vinda do reino se atualiza também ao lançar Deus no abismo os réprobos que não se submetem a seu domínio, e confundi-los em sua arrogância, a fim de que se manifeste plenamente que nenhum poder pode resistir o seu.
Pedimos, pois, que venha o Reino de Deus, ou seja: que o Senhor multiplique dia após dia o número de fiéis que enaltecerão sua glória por todas suas obras, e que reparta mais amplamente a afluência de suas graças sobre eles, a fim de que, vivendo e reinando cada vez mais neles, em união perfeita, os encha de plenitude.
Também pedimos que Deus faça brilhar cada dia mais com novos resplendores sua luz e sua verdade para dissipar e abolir a Satanás e suas mentiras e as trevas de seu reino.
Ao pedirmos que venha o Reino de Deus, pedimos que venha a revelação de seu juízo, naquele dia em que somente Ele será exaltado e será todo em todos, depois de reunir e receber os seus na glória, e depois de ter arrasado e destruído o reino de Satanás.

SEJA FEITA TUA VONTADE, ASSIM NA TERRA COMO NO CÉU
Pedimos aqui que Deus governe e dirija tudo sobre a terra segundo a sua vontade, como faz no céu; que dirija todas as coisas para o fim que lhe parecer bom, servindo-se de todas suas criaturas segundo lhe apraz, e dominando todas as vontades.
Ao pedirmos isto, renunciamos a todos nossos desejos próprios, submetendo e consagrando ao Senhor tudo o que há disponível em nós, e pedindo-lhe que conduza as coisas não segundo nossos desejos, senão como quiser e decidir Ele.
Deste modo lhe pedimos não só que nossos desejos sejam feitos vãos e sem nenhum efeito quando se opõem a sua vontade, senão que crie em nós um espírito e um coração novos, mortificando os nossos de modo tal que não surja neles nenhum desejo sem o completo consentimento de sua vontade.
Em resumo: pedimos não desejarmos nada a não ser o que o Espírito deseje em nós, e que por meio de sua inspiração aprendamos a amar tudo quanto lhe é grato, e a odiar e detestar tudo o que lhe desagrada.

O PÃO NOSSO DE CADA DIA NOS DÁ HOJE
Pedimos aqui, de um modo geral, tudo o que dentre as coisas deste mundo é útil para o cuidado de nossa existência; não só o alimento e o vestido, senão tudo o que Deus sabe que necessitamos para que possamos comer nosso pão em paz. Para dizê-lo brevemente: nos acolhemos com esta petição à providência do Senhor, e nos confiamos a sua solicitude para que nos alimente, cuide e conserve. Pois este bom Pai não tem em menos guardar com solicitude inclusive o nosso corpo. Deste modo, exercita nossa confiança nEle até nos menores pormenores, fazendo que esperemos dEle tudo o que nos é necessário: até a última migalha de pão ou gota d'água. Ao dizer: Dá-nos hoje nosso pão cotidiano, provamos que não devemos desejar mais que o que necessitamos para o dia, com a confiança que, depois de alimentar-nos hoje, nosso Pai também o fará amanhã.
Ainda no caso de viver atualmente em abundância, sempre devemos pedir nosso pão cotidiano, reconhecendo que nenhum meio de existência tem sentido senão em quanto que o Senhor o faz prosperar e aproveitar com sua bênção. Pois o que possuímos não é nosso senão na medida em que Deus nos concede seu uso hora após hora e nos faz participar de seus bens. Ao dizer "pão nosso", a bondade de Deus se manifesta ainda mais, fazendo nosso o que por nenhum título nos era devido. Finalmente, ao pedir que nos seja dado este pão, significamos que tudo o que adquirimos —ainda o que achamos que ganhamos com nosso trabalho—, é puro e gratuito dom de Deus.

PERDOA NOSSAS DÍVIDAS, ASSIM COMO NÓS PERDOAMOS OS NOSSOS DEVEDORES
Pedimos agora que se nos conceda graça e remissão de nossos pecados, pois são necessárias a todos os homens sem exceção alguma.
Chamamos de dívidas as nossas ofensas, pois devemos a Deus a pena como pagamento das mesmas, e não poderíamos de modo algum satisfazer por elas se não estivéssemos absolvidos por essa remissão que é um perdão gratuito de sua misericórdia.
E pedimos que nos seja dado o perdão como nós o damos aos nossos devedores, quer dizer: como nós perdoamos àqueles que nos magoaram de algum modo, que nos ofenderam com atos, ou que nos injuriaram com palavras. Não se trata aqui de uma condição que se agrega, como se merecêssemos, pelo perdão que concedemos a outrem, que Deus no-lo dê a nós. Senão que é uma prova que Deus nos propõe para testemunhar que o Senhor nos recebe em sua misericórdia com a mesma certeza que nós temos em nossas consciências de sermos misericordiosos com os outros, se é que nosso coração está também purificado de todo tipo de ódio, inveja e vingança.
Ao contrário, por esta prova ou sinal, Deus apaga do número de seus filhos àqueles que, deixando-se levar pela vingança e recusando-se a perdoar, mantêm suas inimizades arraigadas em seus corações. Que não pretendam os tais invocar a Deus como Pai deles, pois a indignação que abrigam a respeito dos homens cairá então sobre eles.

E NÃO NOS DEIXES CAIR NA TENTAÇÃO, MAS LIVRA-NOS DO MAL, AMÉM.
Não pedimos aqui não ter que sofrer nenhuma tentação. Temos grandíssima necessidade de que as tentações nos despertem, estimulem e sacudam, pois corremos o perigo de converter-nos em seres amorfos e preguiçosos se permanecermos numa calma excessiva. Cada dia o Senhor prova seus escolhidos, adestrando-os por meio da ignomínia, a pobreza, a tribulação e outras classes de cruzes.
Porém nossa demanda consiste em pedir que o Senhor nos dê também, ao mesmo tempo que as tentações, o meio de sair delas, para não sermos vencidos e esmagados; antes, fortalecidos com a força de Deus, poder manter-nos constantemente contra todos os poderes que nos assaltam.
Mais ainda: uma vez salvaguardados e protegidos por Ele, santificados com as graças de seu Espírito, governados pela sua direção, seremos invencíveis contra o Diabo, a morte e toda classe de artifício do inferno —que é o que significa estarmos livres do mal u do Maligno.
Devemos perceber como quer o Senhor que nossas orações estejam conformes à regra do amor, pois não nos ensina a pedir cada um para si o que é bom, sem olharmos para o nosso próximo, senão que nos ensina a preocupar-nos pelo bem de nosso irmão como do nosso próprio.


PERSEVERAR NA ORAÇÃO

Para terminar, devemos observar que não podemos pretender ligar a Deus a alguma circunstância, da mesma forma que nesta oração dominical nos ensina a não submetê-lo a nenhuma lei nem impor-lhe nenhuma condição.
Antes de dirigi-lhe em nosso favor alguma oração, dizemos primeiramente: "Seja feita a tua vontade". Deste modo submetemos de antemão nossa vontade à dEle para que, detida e retida como por uma brida, não tenha a presunção de querer submetê-lo ou dominá-lo.
Se, uma vez educador nossos corações nesta obediência, nos deixarmos governar pelo bom querer da divina providência, aprenderemos com facilidade a perseverar na oração e a esperar no Senhor com paciência, rejeitando a realização de nossos desejos até que soe a hora de sua vontade. Estaremos também seguros de que, ainda que às vezes possa parecer-nos outra coisa, Ele está sempre presente junto de nós, e que a seu devido tempo manifestará que jamais fez ouvidos surdos a nossas orações, embora segundo o juízo dos homens tenha podido parecer que as menosprezava.Finalmente, se depois de uma longa espera, inclusive nossos sentidos não chegam a captar de que nos tem servido orar, nem percebem fruto algum de nossa oração, nossa fé contudo nos garantirá o que nossos sentidos não podem perceber: que conseguimos tudo o que era necessário. Pela fé possuiremos então abundância na necessidade e consolo na dor. De fato, embora tudo nos falte, Deus jamais nos abandonará, pois não pode frustrar a espera e a paciência dos seus; e Ele sozinho substituirá todas as coisas, já que contém em si mesmo todos os bens, o qual nos revelará totalmente no futuro.

APELO FANÁTICO AO ESPÍRITO EM DETRIMENTO DA ESCRITURA - CALVINO

Posted by Josemar Bessa on Terça-feira, Junho 02, 2009 , under | comentários (0)



OS FANÁTICOS QUE, POSTA DE PARTE A ESCRITURA, ULTRAPASSAM A REVELAÇÃO E UBVERTEM A TODOS OS PRINCÍPIOS DA PIEDADE - NÃO HÁ NOVAS REVELAÇÕES - Ademais, aqueles que, repudiada a Escritura, imaginam não sei que via de acesso a Deus, devem ser considerados não só possuídos pelo erro, mas também exacerbados pela loucura. Ora, surgiram em tempos recentes certos desvairados que, arrogando-se, com extremada presunção, o magistério do Espírito, fazem pouco caso de toda leitura da Bíblia e se riem da simplicidade daqueles que ainda seguem, como eles próprios a chamam, a letra morta e que mata.
Eu, porém, gostaria de saber deles que Espírito é esse de cuja inspiração se transportam a alturas tão sublimadas que ousem desprezar como pueril e rasteiro o ensino da Escritura? Ora, se respondem que é o Espírito de Cristo, tal certeza é absurdamente ridícula, se na realidade concedem, segundo penso, que os apóstolos de Cristo, e os demais fiéis na Igreja primitiva, foram iluminados não por outro Espírito. O fato é que nenhum deles daí aprendeu o menosprezo pela Palavra de Deus; ao contrário, cada um foi antes imbuído de maior reverência, como seus escritos o atestam mui luminosamente. E, na verdade, assim fora predito pela boca de Isaías. Pois o povo antigo não cinge ao ensino externo como se lhe fosse uma cartilha de rudimentos, onde diz: “Meu Espírito que está em ti, e as palavras que te pus na boca, de tua boca não se apartarão, nem da boca de tua descendência, para sempre” [Is 59.21], senão que ensina, antes, haver de ter a nova Igreja, sob o reino de Cristo, esta verdadeira e plena felicidade: que seria regida pela voz de Deus, não menos que pelo Espírito. Do quê concluímos que, em nefando sacrilégio, estes dois elementos que o Profeta uniu por um vínculo inviolável são separados por esses biltres.
A isto acresce que Paulo, arrebatado que foi até ao terceiro céu [2Co 12.2], entretanto não deixou de aprofundar-se no ensino da lei e dos profetas, assim como também exorta a Timóteo, mestre de singular proeminência, a que se devotasse a sua leitura [1Tm 4.13]. E digno de ser lembrado é esse elogio com que adorna a Escritura: “é útil para ensinar, admoestar, redargüir, a fim de que os servos de Deus se tornem perfeitos” [2Tm 3.16]. De quão diabólica loucura é imaginar como se fosse transitório ou temporário o uso da Escritura que conduz os filhos de Deus até a meta final!
Em seguida, desejaria que também me respondessem isto: porventura beberam de outro Espírito além daquele que o Senhor prometia a seus discípulos? Ainda que se achem possuídos de extrema insânia, contudo não os julgo arrebatados de tão frenético desvario que ousem gabar-se disso. Mas, ao prometê-lo, de que natureza declarava haver de ser esse Espírito? Na verdade, um Espírito que não falaria por si próprio; ao contrário, que lhes sugeriria à mente, e nela instilaria o que ele próprio havia transmitido por meio da Palavra [Jo 16.13].
Logo, não é função do Espírito que nos foi prometido configurar novas e inauditas revelações ou forjar um novo gênero de doutrina, mediante a qual sejamos afastados do ensino do evangelho já recebido; ao contrário, sua função é selar-nos na mente aquela mesma doutrina que é recomendada através do evangelho.
A BÍBLIA É O ÁRBITRO DO ESPÍRITO
Do quê facilmente entendemos isto: se ansiamos por receber algum uso e fruto da parte do Espírito de Deus, imperioso nos é aplicar-nos diligentemente a ler tanto quanto a ouvir a Escritura. Assim é que Pedro até louva [2Pe 1.19] o zelo daqueles que estão atentos ao ensino profético, ensino que, todavia, após resplandecida a luz do evangelho, poderia parecer ter sido cancelado. Muito pelo contrário, se algum espírito, preterida a sabedoria da Palavra de Deus, nos impingir outra doutrina, com justa razão deve o mesmo ser suspeito de fatuidade e mentira [Gl 1.6-9]. E então? Uma vez que Satanás se transfigura em anjo de luz [2Co 11.14], que autoridade terá o Espírito entre nós, a não ser que seja discernido através de sinal de absoluta certeza? E de forma intensamente clara, ele nos tem sido apontado pela voz do Senhor, não fora que, por sua própria vontade, estes infelizes porfiassem por extraviar-se para sua própria ruína, enquanto buscam o Espírito por si próprios e não por ele mesmo.
Alegam, com efeito, que é afrontoso que o Espírito de Deus, a quem todas as coisas devem estar sujeitas, seja subordinado à Escritura. Como se, na verdade, isto fosse ignominioso ao Espírito Santo: ser ele por toda parte igual e conforme a si mesmo; permanecer consistente consigo em todas as coisas; em nada variar! De fato, se fosse necessário julgar em conformidade com qualquer norma humana, angélica, ou estranha, então deveria considerar-se que o Espírito estaria reduzido a subordinação; aliás, se agradar mais, até mesmo a servidão. Quando, porém, se compara consigo próprio, quando em si mesmo se considera, quem dirá com isso que ele é impingido com ofensa? Com efeito, confesso que, desta forma, o Espírito é submetido a um exame, contudo um exame através do qual ele quis que sua majestade fosse estabelecida entre nós. Ele deve ser plenamente manifesto assim que nos adentra o coração.
Entretanto, para que o espírito de Satanás não se insinue sob o nome do Espírito, ele quer ser por nós reconhecido em sua imagem que imprimiu nas Escrituras. Ele é o autor das Escrituras: não pode padecer variação e inconsistência para consigo mesmo. Portanto, como ali uma vez se manifestou, assim tem ele de permanecer para sempre. Isto não lhe é derrogatório, a não ser, talvez, quando julgamos dever ele abdicar e degenerar sua dignidade.

O PODER DO DIABO ESTÁ SUJEITO À AUTORIDADE DE DEUS - J. CALVINO

Posted by Josemar Bessa on Segunda-feira, Junho 01, 2009 , under | comentários (0)



Quanto, porém, diz respeito à discórdia e luta que dissemos existir de Satanás com Deus, entretanto assim importa admitir que isto permanece estabelecido: que aquele nada pode fazer, a não ser que Deus o queira e consinta. Ora, lemos na história de Jó que aquele se apresenta diante de Deus para receber ordens, nem mesmo ousa aventurar-se a encetar alguma ação maligna, a não ser que a permissão seja impetradada [Jó 1.6; 2.1]. Assim também, quando Acabe tem de ser enganado, o Diabo toma a si a incumbência de ser um espírito de mentira na boca de todos os profetas, e o executa, comissionado pelo Senhor [1Rs 22.20]. Por esta razão, também se diz provir do Senhor o espírito mau que atormentava a Saul, porque, por meio dele, como por um látego, eram punidos os pecados do ímpio rei [1Sm 16.14; 18.10]. E, em outro lugar [Sl 78.49], está escrito que as pragas foram por Deusinfligidas aos egípcios através de anjos maus.
Em conformidade com esses exemplos particulares, Paulo atesta, generalizadamente [2Ts 2.9, 11], que o endurecimento dos incrédulos é obra de Deus, embora antes fosse dito ser ele operação de Satanás. Portanto, é evidente que Satanás está debaixo do poder de Deus e é de tal modo regido por seu arbítrio que se vê compelido a render-lhe obediência. Conseqüentemente, quando dizemos que Satanás resiste a Deus e que as obras daquele são contrárias às obras deste, estamos afirmando, a um tempo, que esta incompatibilidade e este conflito dependem da permissão de Deus. Não estou falando agora em relação à vontade de Satanás, nem tampouco em referência a seu intento, mas apenas com respeito a sua maneira de atuar. Ora, uma vez que o Diabo é ímpio por natureza, está mui longe de ser propenso a obedecer à vontade divina; ao contrário, ele se inclina à contumácia e à rebelião.
Portanto, isto tem Satanás por si mesmo e por sua própria malignidade: ele se opõe a Deus com vil paixão e deliberado intento. Em virtude dessa depravação, é ele incitado à tentativa dessas coisas que julga serem especialmente contrárias a Deus. Como, porém, este o mantém amarrado e tolhido pelo freio de seu poder, ele leva a bom termo apenas aquelas coisas que lhe foram divinamente concedidas, e assim, queira ou não, obedece a seu Criador, porquanto é compelido a prestar-lhe serviço aonde quer que o mesmo o impelir.
LIMITAÇÃO DO PODER SATÂNICO SOBRE OS CRENTES E DOMÍNIO SOBRE OSINCRÉDULOS
Ora, visto ser verdade que Deus verga os espíritos imundos para cá e para lá, conforme lhe apraz, de tal modo regula este regime que, lutando, aos fiéis molestam, acometem com ciladas, investem com incursões, acossam em combate, não raro até os prostram exaustos, os lançam em confusão, os tornam aterrorizados e, por vezes, lhes infligem feridas, mas jamais os vencem, nem prostram subjugados, enquanto aos ímpios arrastam em sujeição, lhes exercem domínio na alma e no corpo, usam de toda sorte de desregramentos como de escravos.
No tocante aos fiéis, porquanto são inquietados por inimigos deste gênero, por isso ouvem estas exortações: “Não deis lugar ao Diabo” [Ef 4.27]; “O Diabo, vosso inimigo, anda em derredor, como um leão a rugir, buscando a quem devorar, ao qual resisti firmes na fé” [1Pe 5.8]; e semelhantes. A este gênero de luta Paulo confessa não estar imune, quando escreve [2Co 12.7] que, como remédio para quebrantar-lheo orgulho, lhe foi dado um anjo de Satanás, pelo qual fosse humilhado.
Portanto, esta é uma experiência comum a todos os filhos de Deus. Visto, porém, que aquela promessa quanto a haver de ser esmagada a cabeça de Satanás [Gn 3.15] pertence em comum a Cristo e a todos os seus membros, por isso nego que os fiéis possam ser por ele vencidos ou prostrados em sujeição. Sem dúvida que são por vezes consternados, todavia não são a tal ponto desalentados que não se refaçam; tombam pela violência dos golpes, porém em seguida se reerguem; são feridos, porém não mortalmente; enfim, assim aspiram em todo o decurso da vida que, no final, alcancem a vitória, o que, no entanto, não restrinjo a cada ato, individualmente.
Ora, sabemos que, por justa punição de Deus, Davi foi, por um tempo, deixado à mercê de Satanás para que, por impulso deste, recenseasse ao povo [2Sm 24.1; 1Cr 21.1]; nem tampouco deixa Paulo baldada a esperança de perdão, se porventura alguém se visse enredilhado nos laços do Diabo [2Tm 2.26]. Por isso, em outro lugar [Rm 16.20], quando diz: “Mas o Deus de paz em breve esmagará a Satanás debaixo de vossos pés”, o mesmo Paulo mostra que, nesta vida, em que se tem de lutar, a promessa supramencionada aqui só começa a cumprir-se depois que a luta
cumprir-se plenamente. Na verdade, em nosso Cabeça esta vitória sempre subsistiu em plena medida, visto que o príncipe do mundo nada teve nele [Jo 14.30]. Em nós, porém, que somos seus membros, agora se mostra parcialmente. Contudo, haverá de consumar-se completamente quando, despojados de nossa carne, em relação à qual somos ainda susceptíveis à fraqueza, haveremos de ser cheios do poder do Espírito Santo.
Desse modo, onde se levanta e edifica o reino de Cristo, por terra desanda Satanás com seu poder, como o próprio Senhor o expressa [Lc 10.18]: “Vi a Satanás caindo do céu, como um raio.” Pois, com essa afirmação, Cristo confirma o que os apóstolos haviam relatado quanto ao poder de sua própria pregação. De igual forma [Lc 11.21]: “Quando um príncipe ocupa seu paço, todas as coisas que possui estão em paz; quando, no entanto, um mais forte sobrevém, ele é lançado fora” etc. E para este fim, ao morrer, Cristo venceu a Satanás, que tinha “o poder da morte” [Hb 2.14] e de todas as suas hostes promoveu o triunfo, para que não possam fazer mal à Igreja. Doutra sorte, ela seria a cada instante reduzida cem vezes a nada pelo Diabo. Ora, uma vez que tal é nossa insuficiência e tal lhe é o furibundo poder, como, a não ser firmados na vitória de nosso Chefe, faríamos frente, sequer um mínimo, a seus multiformes e constantes ataques?
Portanto, Deus não permite o reinado de Satanás nas almas dos fiéis, mas só nas almas dos ímpios e incrédulos, a quem não tem por dignos de serem contados em sua igreja, os abandona para que sejam por ele governados. Pois diz-se que Satanásocupa indubitavelmente a este mundo até que por Cristo seja dele expulso.
De igual modo, ele cega a todos que não crêem no evangelho [2Co 4.4]. Também, ele leva adiante sua obra nos filhos contumazes [Ef 2.2]. E com razão, pois, todos os ímpios são vasos da ira [Rm 9.22]. Por isso, a quem se deveriam sujeitar, senão ao ministro da divina vingança?
Finalmente, diz-se de todos os réprobos que são “filhos do Diabo” [Jo 8.44; 1Jo 3.8], porque assim como os filhos de Deus são conhecidos por portarem a imagem de Deus, do mesmo modo os demais, por portarem a imagem de Satanás, são considerados com justiça filhos deste.

A EFICIÊNCIA DA PROVIDÊNCIA DIVINA NA MENTE E CORAÇÃO DE TODOS - J. CALVINO

Posted by Josemar Bessa on Sábado, Maio 30, 2009 , under | comentários (0)



No que tange a estas injunções secretas, o que Salomão declara do coração do rei [Pv 21.1], de inclinar-se para cá ou para lá conforme apraz a Deus, na verdade deve estender-se a todo o gênero humano e equivale a tanto como se dissesse que tudo quanto concebemos na mente é dirigido para seu fim pela inspiração secreta de Deus. E de fato, a não ser que operasse na mente dos homens interiormente, não se poderia com razão haver dito que retira a prudência dos lábios dos verazes e dos anciãos [Is 29.14; Jr 7.26]; que remove da terra o coração dos príncipes, para que vagueiem pelos ermos [Jó 12.24; Sl 107.40]. E a isto é pertinente o que se lê muitas vezes: os homens são atemorizados conforme o terror que lhes domina o coração [Lv 26.36]. Assim, do acampamento de Saul, sem que ninguém o percebesse, se retirou Davi, porquanto a todos acometera um sono de Deus [1Sm 26.12]. Nada, porém, mais claro se pode desejar que isto: tantas vezes declara que ele cega o entendimento dos homens e os fere de vertigem [Dt 28.21], embriaga-os de um espírito de torpor, lhes infunde loucura [Rm 1.28], endurece o coração [Ex 14.17, passim]. Muitos, porém, lançam estes fatos à conta da permissão, como se, ao rejeitar aos réprobos, Deus os deixasse entregues a Satanás para que os cegasse. Todavia, uma vez que o Espírito Santo declara expressamente que cegueira e insânia são infligidas pelo justo juízo de Deus [Rm 1.20-24], essa solução se torna muitíssimo frívola.
Está escrito que ele endureceu o coração de faraó [Ex 9.12]; de igual modo, que o fez pesado [Ex 10.1] e o enrijeceu [Ex 10.20, 27; 11.10; 14.8]. Alguns contornam essas formas de expressão através de sutileza insípida, porquanto nessas referências a vontade de Deus é posta como a causa do endurecimento, enquanto em outro lugar [Ex 8.15, 32; 9.34] se diz que o próprio faraó havia endurecido o coração. Como se, na verdade, se bem que de modos diversos, não se harmonizem perfeitamente bem entre si estes dois fatos: que o homem, quando é acionado por Deus, contudo ele, ao mesmo tempo, está também agindo. Eu, porém, lanço contra eles o que objetam, porque, se endurecer denota permissão absoluta, o próprio impulso da contumácia não estará propriamente em faraó. Com efeito, quão diluído e insípido seria interpretar assim, como se faraó apenas se deixasse endurecer! Acresce que de antemão a Escritura corta a asa a tais subterfúgios: “Mas eu”, diz Deus, “lhe endurecerei o coração” [Ex 4.21].
Assim também dos habitantes da terra de Canaã diz Moisés que haviam saído à guerra, porque Deus lhes havia endurecido o coração [Js 11.20]. Exatamente o que é repetido por outro Profeta: “Volveu-lhes o coração para que odiassem a seu povo” [Sl 105.25]. De maneira semelhante, declara em Isaías [10.6] que haverá de enviar os assírios contra a nação enganosa e de dar-lhes preceitos para que tomem os despojos e saqueiem a presa. Não que a homens ímpios e obstinados queira ensinar a obedecer-lhe de espontânea vontade; ao contrário, porque haverá de os vergar para que executem seus juízos, exatamente como se no coração levassem gravadas suas injunções. Do quê transparece que haviam sido impulsionados pela determinação precisa de Deus.
Sem dúvida, confesso que freqüentemente Deus age nos réprobos pela interposição da ação de Satanás, contudo de modo que, por seu impulso, o próprio Satanás execute seu papel e avance até onde lhe foi concedido. Um espírito maligno atormenta a Saul; diz-se, porém, que é da parte de Deus [1Sm 16.14], para que saibamos que a insânia de Saul procedia da justa vingança de Deus. Diz-se ainda que o mesmo Satanás “cega o entendimento dos incrédulos” [2Co 4.4]; mas donde vem isso senão que do próprio Deus promana a operação do erro, para que creiam em mentiras os que se recusam a obedecer à verdade? [2Ts 2.11].
Conforme a primeira noção, assim se diz: “Se qualquer profeta houver falado enganosamente, eu, Deus, o enganei” [Ez 14.9]; conforme a segunda, porém, diz-se que ele próprio entrega os homens a uma disposição réproba e os lança a vis apetites [Rm 1.28], porquanto de sua justa vingança ele é o principal autor; Satanás, na verdade, é apenas seu ministro.

A LEI DO SENHOR - J. CALVINO

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OS DEZ MANDAMENTOS

Na Lei de Deus se nos deu uma perfeitíssima regra de toda justiça, que podemos chamar com toda razão "a vontade eterna do Senhor", pois tem resumido plenamente e com clareza em duas Tábuas tudo quanto exige de nós.
Na primeira Tábua nos prescreveu, em poucos mandamentos, quando é o serviço que lhe é agradável a sua Majestade. Na segunda, quais são as obrigações de caridade que temos com o próximo.

PRIMEIRA TÁBUA

• Primeiro Mandamento
"Eu sou o SENHOR teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão. Não terás outros deuses diante de mim" (Êxodo 20:2-3, ACF).
A primeira parte deste mandamento é como uma introdução a toda a Lei. Pois ao afirmar que Ele é "Jeová, nosso Deus", Deus se declara como quem tem o direito de mandar e a cujo mandado se deve obediência, segundo o diz por seu profeta: "Se eu sou pai, onde está a minha honra? E, se eu sou senhor, onde está o meu temor?" (Malaquias 1:6, ACF).
De igual modo lembra seus benefícios, colocando em evidência nossa ingratidão se não obedecemos a sua voz. Pois por esta mesma bondade com a qual antes "tirou" o povo judeu "da servidão do Egito", libera também a todos seus serviços do eterno Egito, quer dizer, do poder do pecado.
Sua proibição de ter "outros deuses" significa que não devemos atribuir a ninguém nada do que pertence a Deus. Agrega "diante de mim", declarando deste modo que quer ser reconhecido como Deus não só numa confissão externa, senão com toda verdade, do íntimo do coração.
Pois bem, estas coisas pertencem unicamente a Deus, e não podem transferir-se a nenhum outro sem arrebatá-las dEle; estas coisas são: que o adoremos a Ele sozinho, que nos apoiemos em Ele com toda nossa confiança e com toda nossa esperança, que reconheçamos que tudo o bom e santo provém dEle, e que lhe tributemos o louvor por toda bondade e santidade.
• Segundo Mandamento
"Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás a elas nem as servirás" (Êxodo 20:4-5, ACF).
Do mesmo modo que pelo mandamento anterior declarou que era o único Deus, assim agora diz quem é que como deve ser honrado e servido.
Proíbe, pois, que lhe atribuamos "alguma semelhança", e a razão disto nos dá no capítulo 4 do Deuteronômio e no capítulo 40 de Isaias, a saber: que o Espírito não tem nenhum parecido com o corpo.
Do resto, proíbe que demos culto a nenhuma imagem. Aprendamos, pois, deste mandamento que o serviço e a honra de Deus são espirituais: pois, como é Espírito, quer ser honrado e servido em espírito e em verdade. Imediatamente agrega uma terrível ameaça, com a que declara quão gravemente resulta ofendido quebrantando este mandamento: "porque eu, o SENHOR teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniqüidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam, e faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos" (Êx 20:5-6, ACF).
Que e como se disser que Ele é o único em quem devemos descansar, que não suporta que coloquemos a ninguém a seu lado. E inclusive que vingará sua Majestade e sua Glória se alguns a transferirem às imagens ou a qualquer outra coisa; e não de uma vez para sempre, senão nos pais, filhos e descendentes, quer dizer, em todos, enquanto imitem a impiedade de seus pais; do mesmo modo que manifesta sua misericórdia e doçura aos que o amam e guardam sua Lei. Em todo o qual nos declara a grandeza de sua misericórdia que a estende até mil gerações, enquanto que só assina quatro gerações para sua vingança.
• Terceiro Mandamento
"Não tomarás o nome do SENHOR teu Deus em vão; porque o SENHOR não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão" (Êx 20:7, ACF). Nos proíbe aqui abusar de seu santo e sagrado Nome nos juramentos para confirmar coisas vãs ou mentiras, pois os juramentos não devem servir-nos para prazer ou deleite, senão para uma justa necessidade quando se trata de manter a glória do Senhor ou quando é necessário afirmar algo que serve para edificação.
E proíbe terminantemente que maculemos no mínimo seu santo e sagrado Nome; ao contrário, devemos tomar este Nome com reverência e com toda dignidade, segundo o exige sua santidade, trate-se de um juramento que nós pronunciemos, ou de qualquer coisa que nos propomos perante Ele.
E já que o principal uso que devemos realizar deste Nome é invocá-lo, aprendemos que classe de invocação é a que aqui nos ordena.
Finalmente, anuncia neste mandamento um castigo, com o fim que aqueles que profanem com injúrias e outras blasfêmias a santidade de seu Nome, não acreditem que poderão escapar de sua vingança.
• Quarto Mandamento
"Lembra-te do dia do sábado, para o santificar. Seis dias trabalharás, e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o sábado do SENHOR teu Deus; não farás nenhuma obra, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o teu estrangeiro, que está dentro das tuas portas. Porque em seis dias fez o SENHOR os céus e a terra, o mar e tudo que neles há, e ao sétimo dia descansou; portanto abençoou o SENHOR o dia do sábado, e o santificou" (Êx 20:8-11, ACF).
Vemos que promulgou este mandamento por três motivos:
Primeiro, porque o Senhor quis, por meio do repouso do sétimo dia, dar a entender ao povo de Israel o repouso espiritual no qual devem os fiéis abandonar suas próprias obras para que o Senhor opere neles.
Em segundo lugar, quis que existisse um dia ordenado para reunir-se, para escutar sua Lei e tomar parte em seu culto. Em terceiro lugar, quis que aos servos e a os que vivem sob o domínio de outro lhes fosse concedido um dia de repouso para poder descansar de seu trabalho. Mas isto é uma conseqüência, antes que uma razão principal.
Em quanto ao primeiro motivo, não há dúvida alguma de que cessou com Cristo: pois Ele é a Verdade com cuja presença desaparecem todas as figuras, e é o Corpo com cuja vinda se esvaecem todas as sombras. Pelo qual são Paulo afirma que o sábado era "a sombra do porvir". Do resto, declara a mesma verdade quando, no capítulo 6 da carta aos Romanos, nos ensina que fomos sepultados com Cristo, a fim de que por sua morte morramos à corrupção de nossa carne. E isso não se efetua num só dia, senão ao longo de toda nossa vida até que, mortos inteiramente a nós mesmos, sejamos transbordados da vida de Deus. portanto deve estar muito longe do cristão a observação supersticiosa dos dias.
Mas como os dois últimos motivos não podem contar-se entre as sombras antigas senão que se referem por igual a todas as épocas, apesar de ter sido ab-rogado o sábado, ainda tem vigência entre nós o que escolhamos alguns dias para escutar a Palavra de Deus, para romper o pão místico na Ceia e para orar publicamente. Pois somos tão fracos que é impossível reunir tais assembléias todos os dias. Também é necessário que os servos e os operários possam repor-se de seu trabalho.
Por isso foi abolido o dia observado pelos judeus —o qual era útil para desarraigar a superstição—, e se destinou a esta prática um outro dia —o qual era necessário para manter e conservar a ordem e a paz na Igreja.
Se, pois, aos judeus se deu a verdade em figura, a nós se nos revela esta mesma verdade sem nenhuma sombra: Primeiramente, para que consideremos toda nossa vida um "sábado", quer dizer, repouso contínuo de nossas obras, para que o Senhor opere em nós por meio de seu Espírito.
Em segundo lugar, para que mantenhamos a ordem legítima da Igreja, com o fim de escutar a Palavra de Deus, receber os Sacramentos e orar publicamente.
Em terceiro lugar, para que não oprimamos desumanamente com o trabalho aos que nos estão sujeitos.
SEGUNDA TÁBUA

• Quinto Mandamento
"Honra a teu pai e a tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o SENHOR teu Deus te dá" (Êx 20:12, ACF).
Neste mandamento se nos ordena respeitar a nosso pai e mãe, e aos que de modo parecido exercem autoridade sobre nós, como os príncipes e magistrados. A saber, que lhes tributemos reverência, reconhecimento e obediência, e todos os serviços que nos sejam possíveis, pois é a vontade de Deus que correspondamos com todas estas coisas aos que nos trouxeram a esta vida. E pouco importa que sejam dignos ou indignos de receber esta honra, pois, sejam o que for, o Senhor nos os deu por pai e mãe e quis que os honremos.
Mas devemos indicar de passagem que somente se nos manda obedecê-lhes em Deus. pelo qual não devemos, para agradá-los, quebrantar a Lei do Senhor; pois se nos ordenam algo, seja o que for, contra Deus, então não devemos considerá-los, neste ponto, como pai e mãe, senão como estranhos que querem afastar-nos da obediência a nosso verdadeiro Pai.
Este quinto mandamento é o primeiro que contém uma promessa, como o indica são Paulo no capítulo 6 da carta aos Efésios. Pelo fato de prometer o Senhor uma bênção na vida presente aos filhos que tenham servido e honrado a seu pai e mãe, observando este mandamento tão conveniente, declara que tem preparada uma certíssima maldição para os que são rebeldes e desobedientes.

• Sexto Mandamento
"Não matarás" (Êx 20:13, ACF).

Aqui nos é proibido qualquer tipo de violência e ultraje, e em geral toda ofensa que posa ferir o corpo do próximo. Pois se lembrarmos que o homem foi feito a imagem de Deus, devemos considerá-lo como santo e sagrado, de sorte que não pode ser violentado sem violentar também, nele, a imagem de Deus.

• Sétimo Mandamento
"Não adulterarás" (Êx 20:14, ACF).
O Senhor nos proíbe aqui qualquer classe de luxúria e de impureza. Pois o Senhor uniu o homem e a mulher somente pela lei do matrimônio, e como esta união está selada com sua autoridade, a santifica também com sua bênção; portanto, qualquer união que não seja a do matrimônio é maldita ante Ele. É, portanto, nosso que aqueles que não têm o dom da continência —pois é um dom particular que não está na capacidade de todos— coloquem um freio à intemperança de sua carne com o honesto remédio do matrimônio, pois o matrimônio é honroso em todos; porém Deus condenará os fornicarios e os adúlteros.

• Oitavo Mandamento
"Não furtarás" (Êx 20:15, ACF).
Se nos proíbe aqui, de um modo geral, que nos apropriemos dos bens alheios. Pois o Senhor quer que estejam longe de seu povo todo tipo de rapinas por meio das quais são abrumados e oprimidos os fracos, e também toda sorte de enganos com os que se vê surpreendida a inocência dos humildes.
Se, pois, quisermos conservar nossas mãos puras e limpas de furtos, é necessário que nos abstenhamos tanto de rapinas violentas como de enganos e sutilezas.

• Nono Mandamento
"Não dirás falso testemunho contra o teu próximo" (Êx 20:16, ACF).
O Senhor condena aqui todas as maldições e injúrias com as que se ultraja a boa fama de nosso irmão, e todas as mentiras com as quais, de qualquer forma que seja, se fere o próximo.
Pois se a boa fama é mais preciosa que qualquer outro tesouro, não recebemos menos dano ao sermos despojados da integridade de nossa boa fama que ao sê-lo de nossos bens. Com freqüência se consegue tirar os bens a um irmão com falsos testemunhos, tão perfeitamente como com a cobiça das mãos. Por isso fica amarrada nossa língua por este mandamento, como o estão nossas mãos pelo anterior.

• Décimo Mandamento
"Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo" (Êx 20:17, ACF).
Por este mandamento o Senhor coloca como um freio a todos os desejos que ultrapassam os limites da caridade. Pois todo o que os outros mandamentos proíbem cometer em forma de atos contra a regra do amor, este proíbe concebê-lo no coração.
Assim, este mandamento condena o ódio, a inveja, a malevolência, do mesmo modo que antes estava condenado o homicídio. Tão proibidos estão os afetos impuros e as máculas internas do coração como a libertinagem. Onde já estavam proibidos o engano e a cobiça, aqui o está a avareza; onde já se proibia a murmuração, aqui se reprime inclusive a malevolência.
Vemos, pois, quão geral é a intenção deste mandamento, e como se estende ao longo e ao largo. Pois o Senhor exige que amemos nossos irmãos com um afeto maravilhoso e sumamente ardoroso, e quer que não se veja turvado pela mais mínima cobiça contra o bem e proveito do próximo.
Em resumo, este mandamento consiste, portanto, em que amemos o próximo de tal modo que nenhuma cobiça contrária à lei do amor nos afague, e que estejamos dispostos a dar de bom grau a cada um o que lhe pertence. Agora bem, devemos considerar como pertencente a cada um o que pelo mesmo dever de nosso cargo estamos obrigados a dá-lhe.

RESUMO DA LEI

Nosso Senhor Jesus Cristo nos declarou suficientemente para onde tendem todos os mandamentos da Lei, ao ensinar-nos que toda a Lei re compreendida em dois artigos.
O primeiro, que amemos o Senhor, nosso Deus, com todo nosso coração, com toda nossa alma e com todas nossas forças.
O segundo, que amemos nosso próximo cristianismo a nós mesmos.
E esta interpretação a tomou da própria Lei, pois a primeira parte está no capítulo 6 do Deuteronômio e a segunda a achamos no capítulo 19 do Levítico.

A BÍBLIA É O ÚNICO ESCUDO A PROTEGER DO ERRO - CALVINO

Posted by Josemar Bessa on Terça-feira, Maio 26, 2009 , under | comentários (0)



1. O VERDADEIRO CONHECIMENTO DE DEUS NA BÍBLIA
L
PARA QUE ALGUÉM CHEGUE A DEUS O CRIADOR É NECESSÁRIO QUE A ESCRITURA SEJA SEU GUIA E MESTRA - Portanto, ainda que esse fulgor, que aos olhos de todos se projeta no céu e na terra, mais que suficientemente despoje de todo fundamento a ingratidão dos homens, serve também para envolver o gênero humano na mesma incriminação. Deus a todos, sem exceção, exibe sua divina majestade debuxada nas criaturas, contudo é necessário adicionar outro e melhor recurso que nos dirija retamente ao próprio Criador do universo. Portanto, Deus não acrescenta em vão a luz de sua Palavra para que a salvação se fizesse conhecida. E considerou dignos deste privilégio aqueles a quem quis atrair para mais perto e mais íntimo.
Ora, visto que ele via a mente de todos ser arrastada para cá e para lá em agitação errática e instável, depois que elegeu os judeus para si por povo peculiar, cercou-os de sebes, de todos os lados, para que não se extraviassem à maneira dos demais. Nem em vão nos retém ele, mediante o mesmo remédio, no puro conhecimento de si mesmo; pois, de outra sorte, bem depressa se diluiriam até mesmo aqueles que, acima dos demais, parecem manter-se firmes. Exatamente como se dá com pessoas idosas, ou enfermas dos olhos, e tantos quantos sofram de visão embaçada, se puseres diante delas mesmo um vistoso volume, ainda que reconheçam ser algo escrito, contudo mal poderão ajuntar duas palavras; ajudadas, porém, pela interposição de lentes, começarão a ler de forma distinta. Assim a Escritura, coletando-nos na mente conhecimento de Deus que de outra sorte seria confuso, dissipada a escuridão, nos mostra em diáfana clareza o Deus verdadeiro. É esta, portanto, uma dádiva singular, quando, para instruir a Igreja, Deus não
apenas se serve de mestres mudos, mas ainda abre seus sacrossantos lábios, não simplesmente para proclamar que se deve adorar a um Deus, mas ao mesmo tempo declara ser esse Aquele a quem se deve adorar; nem meramente ensina aos eleitos a atentarem para Deus, mas ainda se mostra como Aquele para quem devem atentar. Ele tem mantido esse proceder para com sua Igreja desde o princípio, para que, afora essas evidências comuns, também aplicasse a Palavra, a qual é a mais direta e segura marca para reconhecê-lo.
Não carece de dúvida que Adão, Noé, Abraão e os demais patriarcas tenham, mercê deste recurso, atingido íntimo conhecimento dele, o qual, de certo modo, os distinguia dos incrédulos. Não estou ainda falando da doutrina apropriada pela fé pela qual foram iluminados para a esperança da vida eterna. Ora, para que passassem da morte para a vida, foi-lhes necessário conhecer a Deus não apenas como Criador, mas ainda como Redentor, de sorte que chegaram seguramente a um e outro desses dois conceitos à base da Palavra.
Ora, na ordem, veio primeiro aquela modalidade de conhecimento mediante o qual fora dado alcançar quem é esse Deus por quem o mundo foi criado e é governado. Acrescentou-se depois a outra, interior, a única que vivifica as almas mortais, por meio da qual se conhece a Deus não apenas como Criador do universo e único Autor e Árbitro de todas as coisas que existem, mas ainda, na pessoa do Mediador, como Redentor. Entretanto, visto que ainda não chegamos à queda do mundo e à corrupção da natureza, deixo também de tratar de seu remédio.
Portanto, os leitores se lembrarão de que ainda não irei fazer considerações a respeito daquele pacto mediante o qual Deus adotou para si os filhos de Abraão, bem como daquela parte da doutrina por meio da qual os fiéis sempre foram devidamente separados das pessoas profanas, pois que ele se fundamentou em Cristo, doutrina essa que será abordada na seção cristológica, mas somente enfocarei como se deve aprender da Escritura que Deus, que é o Criador do mundo, se distingue, por marcas seguras, de toda a multidão forjada de deuses. Oportunamente, mais adiante, a própria seqüência nos conduzirá à Redenção. Mas, embora tenhamos de derivar do Novo Testamento muitos testemunhos, outros também da lei e dos profetas, onde se faz expressa menção de Cristo, contudo todos tendem a este fim: que Deus, o Artífice do universo, se nos patenteia na Escritura; e o que dele se deva pensar, nela se expõe, para que não busquemos por veredas ambíguas alguma deidade incerta.
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2. A BÍBLIA, A PALAVRA DE DEUS ESCRITA.
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Contudo, seja porque Deus se fez conhecido aos patriarcas através de oráculos e visões, seja porque, mediante a obra e ministério de homens, ele deu a conhecer o que depois, pelas próprias mãos, houvessem de transmitir aos pósteros, porém está fora de dúvida que a firme certeza da doutrina foi gravada em seu coração, de sorte que fossem persuadidos e compreendessem que o que haviam aprendido procedera de Deus. Pois, através de sua Palavra, Deus fez para sempre com que a fé não fosse dúbia, fé esta que houvesse de ser superior a toda mera opinião. Por fim, para que em perpétua continuidade de doutrina , a sobreviver por todos os séculos, a verdade permanecesse no mundo, esses mesmos oráculos que depositara com os patriarcas ele quis que fossem registrados como que em instrumentos públicos. Neste propósito, a lei foi promulgada, a qual mais tarde os profetas foram acrescentados como intérpretes.
Ora, visto que o uso da lei foi múltiplo, como se verá melhor no devido lugar, na verdade foi especialmente outorgada a Moisés e a todos os profetas a incumbência de ensinar o modo de reconciliação entre Deus e os homens, donde também Paulo chama Cristo o fim da lei (Rm 10.4). Contudo, outra vez o reitero, além da doutrina apropriada da fé e do arrependimento, que apresenta Cristo como o Mediador, a Escritura adorna de marcas e sinais inconfundíveis ao Deus único e verdadeiro, porquanto criou o mundo e o governa, para que ele não se misture com a espúria multidão de divindades.
Portanto, por mais que ao homem, com sério propósito, convenha volver os olhos a considerar as obras de Deus, uma vez que foi colocado neste esplendíssimo teatro para que fosse seu espectador, todavia, para que fruísse maior proveito, convém-lhe, sobretudo, inclinar os ouvidos à Palavra. E por isso não é de admirar que, mais e mais, em sua insensibilidade se façam empedernidos aqueles que nasceram nas trevas, porquanto pouquíssimos se curvam dóceis à Palavra de Deus, de sorte que se contenham dentro de seus limites; ao contrário, antes exultam em sua futilidade.
Mas, para que nos reluza a verdadeira religião, é preciso considerar isto: que ela tenha a doutrina celeste como seu ponto de partida; nem pode alguém provar sequer o mais leve gosto da reta e sã doutrina, a não ser aquele que se faz discípulo da Escritura. Donde também provém o princípio do verdadeiro entendimento: quando abraçamos reverentemente o que Deus quis testificar nela acerca de si mesmo. Ora, não só a fé consumada, ou completada em todos os seus aspectos, mas ainda todo reto conhecimento de Deus nascem da obediência à Palavra. E, fora de toda dúvida, neste aspecto, com singular providência, Deus em todos os tempos teve em consideração os mortais.
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3. A BÍBLIA É O ÚNICO ESCUDO A PROTEGER DO ERRO
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Com efeito, se refletirmos bem quão acentuada é a tendência da mente humana para com o esquecimento de Deus; quão grande sua inclinação para com toda sorte de erro; quão pronunciado o gosto de a cada instante forjar novas e fantasiosas religiões, poder-se-á perceber quão necessária foi tal autenticação escrita da doutrina celestial, para que não desvanecesse pelo ouvido, ou se dissipasse pelo erro, ou fosse corrompida pela petulância dos homens. Como sobejamente assim se evidencia, Deus proveu o subsídio da Palavra a todos aqueles a quem quis, a qualquer tempo, instruir eficientemente, porque antevia ser pouco eficaz sua efígie impressa na formosíssima estrutura do universo. Portanto, necessário se nos faz trilhar por esta reta vereda, caso aspiremos, com seriedade, à genuína contemplação de Deus.
Afirmo que importa achegar-se à Palavra onde, de modo real e ao vivo, Deus
nos é descrito em função de suas obras, enquanto essas próprias obras aí se apreciam, não conforme a depravação de nosso julgar, mas segundo a norma da verdade eterna. Se dela nos desviamos, como há pouco frisei, ainda que nos esforcemos com extrema celeridade, entretanto, uma vez que a corrida será fora da pista, jamais conseguirá ela atingir a meta. Pois assim se deve pensar: o resplendor da face divina, o qual o Apóstolo proclama ser inacessível [1Tm 6.16], nos é inextricável labirinto, a não ser que pelo Senhor sejamos dirigidos através dele pelo fio da Palavra, visto ser preferível claudicar ao longo desta vereda a correr a toda brida fora dela.
Assim é que, não poucas vezes [Sl 93, 96, 97, 99 e afins], ensinando que importa alijar do mundo as superstições para que floresça a religião pura, Davi representa Deus a reinar, significando pelo termo reinar não o poder do qual Deus se acha investido e o qual exerce no governo universal da natureza, mas a doutrina pela qual para si reivindica soberania legítima, porquanto os erros jamais podem ser arrancados do coração humano, enquanto não for nele implantado o verdadeiro conhecimento de Deus.
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4. A SUPERIORIDADE REVELACIONAL DA BÍBLIA SOBRE A CRIAÇÃO
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Por isso, o mesmo Profeta, onde trouxe à lembrança que a glória de Deus é proclamada pelos céus, que as obras de suas mãos são anunciadas pelo firmamento, que sua majestade é apregoada pela seqüência regular dos dias e das noites [Sl 19.1, 2], em seguida desce à menção da Palavra: “A lei do Senhor” diz ele, “é sem defeito, reanimando as almas; o testemunho do Senhor é fiel, dando sabedoria aos pequeninos; os atos de justiça do Senhor são retos, alegrando os corações; o preceito do Senhor é límpido, iluminando os olhos” [Sl 19.7, 8]. Ora, embora ele inclua ainda outros usos da lei, contudo assinala, de modo geral, porquanto em vão Deus convida a si a todos os povos pela contemplação do céu e da terra, afirmando que esta é a escola especial dos filhos de Deus: a Escritura.
Idêntica é a perspectiva do Salmo 29, no qual o Profeta, após discursar a respeito da voz terrível de Deus, a qual sacode a terra com trovões, ventanias, chuvas, furacões e tempestades, faz tremer as montanhas, despedaça os cedros, contudo no final acrescenta que seus louvores são entoados no santuário, porquanto os incrédulos são surdos a todas as vozes de Deus que ressoam nos ares. De igual modo, assim ele conclui em outro dos Salmos, onde descreveu as ondas espantosas do mar: “Mui fiéis são teus testemunhos; a santidade convém a tua casa, para sempre” [Sl 93.5]. Daqui também promana aquilo que Cristo dizia à mulher samaritana [Jo 4.22]: que seu povo e todos os demais povos adoravam o que desconheciam; e que somente os judeus exibiam o culto verdadeiro de Deus.
Ora, já que, em razão de sua obtusidade, de modo algum a mente humana pode chegar a Deus, salvo se for assistida e sustentada por sua Santa Palavra, então todos os mortais – excetuados os judeus –, visto que buscavam a Deus sem a Palavra, lhes foi inevitável que vagassem na futilidade e no erro.
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O CONHECIMENTO DE DEUS FOI POR NATUREZA INSTILADO NA MENTE HUMANA - J. CALVINO

Posted by Josemar Bessa on Quarta-feira, Abril 15, 2009 , under | comentários (0)



1. UNIVERSALIDADE DO SENTIMENTO RELIGIOSO

Que existe na mente humana, e na verdade por disposição natural, certo senso da divindade, consideramos como além de qualquer dúvida. Ora, para que ninguém se refugiasse no pretexto de ignorância, Deus mesmo infundiu em todos certa noção de sua divina realidade, da qual, renovando constantemente a lembrança, de quando em quando instila novas gotas, de sorte que, como todos à uma reconhecem que Deus existe e é seu Criador, são por seu próprio testemunho condenados, já que não só não lhe rendem o culto devido, mas ainda não consagram a vida a sua vontade.
Certamente, se em algum lugar se haja de procurar ignorância de Deus, em nenhuma parte é mais provável encontrar exemplo disso que entre os povos mais retrógrados e mais distanciados da civilização humana. E todavia, como o declara aquele pagão, não há nenhuma nação tão bárbara, nenhum povo tão selvagem, no qual não esteja profundamente arraigada esta convicção: Deus existe! E mesmo aqueles que em outros aspectos da vida parecem diferir bem pouco dos seres brutos, ainda assim retêm sempre certa semente de religião. Tão profundamente penetrou ela às mentes de todos, que este pressuposto comum se apegou tão tenazmente às entranhas de todos!
Portanto, como desde o princípio do mundo nenhuma região, nenhuma cidade, enfim nenhuma casa tenha existido que pudesse prescindir da religião, há nisso uma tácita confissão de que no coração de todos jaz gravado o senso da divindade. Aliás, até a própria idolatria é ampla evidência desta noção. Pois sabemos de quão mau grado se humilha o homem para que admire a outras criaturas acima de si mesmos. Desse modo
, quando prefere render culto à madeira e à pedra, antes que seja considerado como não tendo nenhum deus, claramente se vê que esta impressão tem uma força e vigor prodigiosos, visto que de forma alguma pode ser apagada do entendimento do homem,3 de modo que é mais fácil que as inclinações naturais se quebrantem, as quais, desta forma, na realidade se quebrantam quando, de seu arbítrio, o homem desce daquela altivez natural às coisas mais inferiores para que assim possa adorar a Deus.

2. RELIGIÃO NÃO É INVENCIONICE GRATUITA

Isto posto, é inteiramente gratuito o que se ouve de alguns, isto é, que a religião foi engendrada pela sutileza e argúcia de uns poucos, para com esta artimanha manterem em sujeição o populacho simplório, ao mesmo tempo em que, entretanto, nem os mesmos que foram os inventores da adoração de Deus para os outros creriam existir algum Deus!
Sem dúvida confesso que, a fim de manterem o espírito mais obediente a si, homens astutos têm inventado muita coisa em matéria de religião, para com isso infundirem reverência ao poviléu e inculcar-lhe temor. Isso, no entanto, em parte alguma teriam conseguido não fosse que já antes a mente humana tivesse sido imbuída dessa firme convicção acerca de Deus, da qual, como de uma semente, emerge a propensão para a religião. E por certo não é de crer-se que tenham carecido totalmente do conhecimento de Deus os mesmos que, sob pretexto de religião, habilidosamente exploravam aos menos esclarecidos. Pois, ainda que no passado tenham existido alguns, e hoje eles não são poucos, que neguem existir Deus, contudo, queiram ou não queiram, de quando em quando acode-lhes certo sentimento daquilo que desejam ignorar.
Em parte alguma se lê de ter existido um desprezo mais incontido ou desenfreado pela divindade do que em Gaio Calígula. Entretanto, ninguém tremeu mais miseravelmente sempre que se patenteava alguma manifestação da ira divina. Desse modo, malgrado seu, fremia de pavor diante de Deus, a quem publicamente porfiava por desprezar. Isso, aqui e ali, se sobrevem também aos que lhe fazem páreo; portanto, quem é mais petulante em desprezar a Deus, de fato também, ao mero ruído de uma folha que cai, desmedidamente se perturba [Lv 26.36].
Donde vem isso senão da ação vingadora da divina majestade, que tanto mais cruciantemente lhes espicaça a consciência, à media que dele mais tentam fugir? É verdade que volvem-se para todos os esconderijos em que procuram ocultar-se da presença do Senhor, e de novo da memória a apagam, contudo, quer queiram, quer não queiram, nela sempre se conservam enredilhados. E por mais que por vezes pareça desvanecer-se por algum momento, no entanto logo depois surge, e com novo ímpeto irrompe, de sorte que, se porventura têm eles alívio dessa ansiedade da consciência, não será ela muito diferente do sono dos ébrios ou dos frenéticos, os quais na verdade, mesmo dormindo, não repousam tranqüilamente, visto que são continuamente acossados por sonhos terríveis e apavorantes. Portanto, até os próprios ímpios são exemplos de que vigora sempre na alma de todos os homens alguma noção de Deus.

3. IMPOSSIBILIDADE DE ATEÍSMO REAL

Isto, sem dúvida, será sempre evidente aos que julgam com acerto, ou, seja, que está gravado na mente humana um senso da divindade que jamais se pode apagar. Mais: esta convicção de que há algum Deus não só é a todos ingênita por natureza, mas ainda que lhes está encravada no íntimo, como que na própria medula, que a contumácia dos ímpios é testemunha qualificada, a saber, lutando furiosamente, contudo não conseguem desvencilhar-se do medo de Deus. Ainda que Diágoras, e tantos como ele, através de todos os séculos, zombeteiramente motejem de tudo quanto diz respeito à religião, e como Dionísio tem ridicularizado o juízo celeste, esse não passa de um riso sardônico, pois que em seu interior o verme da consciência rói mais pungente que todos os cautérios.
Não digo o que Cícero dizia, que com o correr do tempo os erros se tornam obsoletos; enquanto que, com o passar dos dias, mais cresce e melhor se faz a religião. Ora, o mundo, como pouco adiante se haverá de dizer, tenta quanto está em seu poder alijar para bem longe o conhecimento de Deus, e de todos os modos corrompe-lhe o culto. Afirmo simplesmente isto: enquanto na mente se lhes enlanguesce essa obstinada dureza que os ímpios avidamente evocam para repudiarem a Deus, no entanto cobra viço, e por vezes medra vigoroso, esse senso da divindade
que, tão ardentemente, desejariam fosse ele extinto. Donde concluímos que esta não é uma doutrina que se aprende na escola, mas que cada um, desde o ventre materno, deve ser mestre dela para si próprio, e da qual a própria natureza não permite que alguém esqueça, ainda que muitos há que põem todo seu empenho nessa tarefa. Portanto, se todos nascem e vivem com essa disposição de conhecer a Deus, e o conhecimento de Deus, se não chega até onde eu disse, é caduco e fútil, é claro que todos aqueles que não dirigem quanto pensam e fazem a esta meta, degeneram e se apartam do fim para o qual foram criados. Isto não foi desconhecido nem aos próprios filósofos. Ora, Platão6 não quis dizer outra coisa, visto que amiúde ensinou que o sumo bem da alma é semelhança com Deus, quando, apreendido o conhecimento dele, toda nele se transforma. Daí, muito a propósito, nos escritos de Plutarco arrazoa também Grilo, quando afirma que os homens, uma vez que a religião lhes seja ausente da vida, não só em nada excedem aos animais, mas até em muitos aspectos lhes são muito mais dignos de lástima, porquanto, sujeitos a tantas espécies de males, levam de contínuo uma vida tumultuária e desassossegada.
Portanto, o que os faz superiores é tão somente o culto de Deus, mediante o qual se aspira à imortalidade.

COMO CONHECER A DEUS? - J. CALVINO

Posted by Josemar Bessa on Sexta-feira, Abril 10, 2009 , under | comentários (0)



1. PIEDADE É O REQUISITO PARA SE CONHECER A DEUS

Portanto, de fato entendo como conhecimento de Deus aquele em virtude do qual não apenas concebemos que Deus existe, mas ainda apreendemos o que nos importa dele conhecer, o que lhe é relevante à glória, enfim, o que é proveitoso saber a seu respeito. Ora, falando com propriedade, nem diremos que Deus é conhecido onde nenhuma religiosidade há, nem piedade. E aqui ainda não abordo essa modalidade de conhecimento pela qual os homens, em si perdidos e malditos, apreendem a Deus como Redentor, em Cristo, o Mediador. Ao contrário, estou falando apenas desse conhecimento primário e singelo, a que nos conduziria a própria ordem da natureza, se Adão se conservasse íntegro. Ora, se bem que nesta ruinosa situação do gênero humano já ninguém sentirá a Deus, seja como Pai, seja como autor da salvação, seja como de qualquer maneira propício, até que Cristo se interponha como agente mediador para apaziguá-lo em relação a nós, todavia uma coisa é sentirmos que Deus, como nosso Criador, nos sustenta com seu poder, nos governa em sua providência, nos provê em sua bondade e nos cumula de toda sorte de bênçãos; outra, porém, é abraçarmos a graça da reconciliação que nos é proposta em Cristo.
Portanto, uma vez que o Senhor se mostra, em primeiro lugar, tanto na estrutura do mundo, quanto no ensino geral da Escritura, simplesmente como Criador, e então na face de Cristo [2Co 4.6] como Redentor, daí emerge dele duplo conhecimento, de que se nos impõe tratar agora do primeiro. O outro se seguirá, na devida ordem. Mas, embora nossa mente não possa apreender a Deus sem que lhe renda alguma expressão cultual, não bastará, contudo, simplesmente sustentar que ele é um e único, a quem importa ser de todos cultuado e adorado, se não estamos também persuadidos de que ele é a fonte de todo bem, para que nada busquemos de outra parte senão nele.
Eu o recebo nestes termos: não só que uma vez ele criou este mundo, e de tal forma o sustém por seu imenso poder; o regula por sua sabedoria; o preserva por sua bondade; rege com sua justiça e eqüidade especialmente ao gênero humano; suporta-o em sua misericórdia; guarda-o em sua proteção; mas, ainda que em parte alguma se achará uma gota ou de sabedoria e de luz, ou de justiça, ou de poder, ou de retidão, ou de genuína verdade, que dele não emane e de que não seja ele próprio a causa; de sorte que aprendamos a realmente dele esperar e nele buscar todas essas coisas; e, após recebidas, a atribuir-lhas com ação de graças.
Ora, este senso dos poderes de Deus nos é mestre idôneo da piedade, da qual nasce a religião. Chamo piedade à reverência associada com o amor de Deus que nos faculta o conhecimento de seus benefícios. Pois, até que os homens sintam que tudo devem a Deus, que são assistidos por seu paternal cuidado, que é ele o autor de todas as coisas boas, daí nada se deve buscar fora dele, jamais se lhe sujeitarão em obediência voluntária. Mais ainda: a não ser que ponham nele sua plena felicidade, verdadeiramente e de coração nunca se lhe renderão por inteiro.

2. CONFIANÇA E REVERÊNCIA SÃO FATORES DO CONHECIMENTO DE DEUS

Portanto, simplesmente se recreiam em frívolas especulações quantos se propõem insistir nesta pergunta: Que é Deus? quando devemos antes interessar saber qual é sua natureza e o que lhe convém à natureza. Pois, de que vale, segundo Epicuro, confessar um Deus que, pondo de parte o cuidado do mundo, só se apraz no ócio? Afinal, que ajuda traz conhecer a um Deus com quem nada temos a ver? Antes, pelo contrário, seu conhecimento nos deve valer, em primeiro lugar, que nos induza ao temor e à reverencia; segundo, tendo-o por guia e mestre, aprendamos a buscar nele todo o bem e, em recebendo-o, a ele tudo creditar.
Ora, como pode subir-te à mente o pensamento de Deus, sem que, ao mesmo tempo, logo reflitas: uma vez que és feitura dele, pelo próprio direito de criação foste sujeitado e vinculado a seu domínio, que lhe deves a vida, que convém atribuir-lhe tudo quanto fazes? Se assim é, então segue-se necessariamente, uma vez que sua vontade nos deve ser a lei do viver, que inexoravelmente a vida te é corrompida, se não a pões ao serviço dele. Por outro lado, nem o podes visualizar com clareza, sem que reconheças ser ele a fonte e origem de todas as coisas boas, donde deveria nascer não só o desejo de se apegar a ele, mas ainda de depositar nele sua confiança, se o homem não desviasse sua mente da reta investigação para sua depravação. Ora, para começar, a mente piedosa não sonha para si um Deus qualquer; ao contrário, contempla somente o Deus único e verdadeiro; nem lhe atribui coisa alguma que lhe ocorra à imaginação, mas se contenta com tê-lo tal qual ele mesmo se manifesta, e com a máxima diligência sempre se acautela, para que não venha, mercê de ousada temeridade, a vaguear sem rumo, indo além dos limites de sua vontade. Conhecido Deus desta forma, visto saber que ele a tudo governa, confia ser ele seu guia e protetor, e assim se entrega a toda sua guarda; porque entende ser ele o autor de todo bem, se algo o oprime, se algo lhe falta, de pronto a sua proteção se recolhe, dele esperando assistência; visto que está persuadido de que ele é bom e misericordioso, nele repousa com segura confiança, nem duvida que a todos os seus males em sua clemência haverá de ter sempre preparado o remédio; visto que o reconhece por Senhor e Pai, também o julga digno de toda sua atenção, em todas as coisas, para sua soberania, reverenciar sua majestade, procurar promover sua glória, seus preceitos obedecer; porque percebe ser ele justo juiz e armado de sua severidade para punir os crimes, tem sempre diante dos olhos seu tribunal, e no temor que por ele nutre, se retrai e coíbe de provocar-lhe a ira. Todavia, não significa que a tal ponto se deixa apavorar pelo senso de seu juízo que, embora lhe seja patente o meio de evadir-se, ainda que o queira. Antes, não menos o abraça como o juiz dos maus quanto é ele o benfeitor dos piedosos; uma vez que compreende que tanto pertence à glória de Deus dar aos ímpios e perversos o castigo que merecem, como também aos justos o dom da vida eterna. Além disso, refreia-se de pecar não só pelo temor do castigo, mas porque ama e reverencia a Deus como Pai; honra-o e cultua-o como Senhor; e mesmo que não existisse nenhum inferno, ainda assim treme só à idéia da ofensa.
Eis no que consiste a religião pura e real: fé aliada a sério temor de Deus, de modo que o temor não só em si contém reverência espontânea, mas ainda traz consigo a legítima adoração, a qual está prescrita na lei. E isto se deve observar com mais diligência: enquanto todos veneram a Deus de maneira vaga e geral, pouquíssimos o reverenciam de verdade; enquanto, por toda parte, grande é a ostentação em cerimônias, rara, porém, é a sinceridade de coração.

O CONHECIMENTO DE DEUS E O CONHECIMENTO DE NÓS MESMOS - CALVINO

Posted by Josemar Bessa on Quinta-feira, Abril 09, 2009 , under | comentários (0)



1. O CONHECIMENTO DE NÓS MESMOS NOS CONDUZ AO CONHECIMENTO DE DEUS

Quase toda a soma de nosso conhecimento, que de fato se deva julgar como verdadeiro e sólido nhecimento, consta de duas partes: o conhecimento de Deus e o conhecimento de nós mesmos. Como, porém, se entrelaçam com muitos elos, não é fácil, entretanto, discernir qual deles precede ao outro, e ao outro origina.
Em primeiro lugar, visto que ninguém pode sequer mirar a si próprio sem imediatamente volver o pensamento à contemplação de Deus, em quem vive e se move [At 17.28], por isso longe está de obscuro o fato de que os dotes com que somos prodigamente investidos de modo algum provêm de nós mesmos. Mais ainda, nem é nossa própria existência, na verdade, outra coisa senão subsistência no Deus único.
Em segundo lugar, por estas mercês que do céu, gota a gota, sobre nós se destilam, somos conduzidos à fonte como por pequeninos regatos. Aliás, já de nossa própria carência melhor se evidencia aquela infinidade de recursos que residem em Deus. Particularmente, esta desventurada ruína em que nos lançou a defecção do primeiro homem nos compele a alçar os olhos para o alto, não apenas para que, jejunos e famintos, daí roguemos o que nos falte, mas ainda para que, despertados pelo temor, aprendamos a humildade.
Ora, como no homem se depara um como que mundo de todas as misérias, e desde que fomos despojados de nosso divino adereço, vergonhosa nudez põe a descoberto imensa massa de torpezas, do senso da própria infelicidade deve necessariamente cada um ser espicaçado para que chegue pelo menos a algum conhecimento de Deus.
E assim na consciência de nossa ignorância, fatuidade, penúria, fraqueza, enfim, de nossa própria depravação e corrupção, reconhecemos que em nenhuma outra parte, senão no Senhor, se situam a verdadeira luz da sabedoria, a sólida virtude, a plena abundância de tudo que é bom, a pureza da justiça, e daí somos por nossos próprios males instigados à consideração das excelências de Deus. Nem podemos aspirar a ele com seriedade antes que tenhamos começado a descontentar-nos de nós mesmos. Pois quem dos homens há que em si prazerosamente não descanse, quem na verdade assim não descanse, por quanto tempo é a si mesmo desconhecido, isto é, por quanto tempo está contente com seus dotes e ignorante ou esquecido de sua miséria? Conseqüentemente, pelo conhecimento de si mesmo cada um é não apenas guilhoado a buscar a Deus, mas até como que conduzido pela mão a achá-lo.

2. O CONHECIMENTO DE DEUS NOS LEVA AO CONHECIMENTO DE NÓS MESMOS

Por outro lado, é notório que o homem jamais chega ao puro conhecimento de si mesmo até que haja antes contemplado a face de Deus, e da visão dele desça a examinar-se a si próprio. Ora, sendo-nos o orgulho a todos ingênito, sempre a nós mesmos nos parecemos justos, e íntegros, e sábios, e santos, a menos que, em virtude de provas evidentes, sejamos convencidos de nossa injustiça, indignidade, insipiência e depravação. Não somos, porém, assim convencidos, se atentamos apenas para nós mesmos e não também para o Senhor, que é o único parâmetro pelo qual se deve aferir este juízo. Pois, uma vez que somos todos por natureza propensos à hipocrisia, por isso qualquer vã aparência de justiça nos satisfaz amplamente em lugar da real justiça. E porque dentro de nós ou a nosso derredor nada se vê que não seja contaminado de crassa impureza, por todo tempo que confinamos nossa mente aos limites da depravação humana, aquilo que é um pouco menos torpe a nós nos sorri como coisa da mais refinada pureza. Exatamente como se dá com um olho diante do qual nada se põe de outras cores senão o preto: julga-se alvíssimo o que, entretanto, é de brancura um tanto esfumada, ou até mesmo tisnado de certa tonalidade fosca. Ademais, dos próprios sentidos do corpo nos é possível discernir ainda mais de perto quanto nos enganamos ao avaliarmos os poderes da alma. Ora, se em pleno dia ou baixamos a vista ao solo,ou fitamos as coisas que em torno de nós se patenteiam ao olhar, parecemo-nos dotados de mui poderosa e penetrante acuidade. Quando, porém, alçamos os olhos para o sol e o miramos diretamente, esse poder de visão que sobre a terra se fazia ingente prontamente se suprime e confunde com fulgor tão intenso, de sorte a sermos forçados a confessar que essa nossa habilidade em contemplar as coisas terrenas, quando para o sol se voltou, é mera ofuscação. Assim também se dá ao estimarmos nossos recursos espirituais. Pois, por tanto tempo quanto não lançamos a vista além da terra, mui fantasiosamente nos lisonjeamos a nós mesmos, de todo satisfeitos com nossa própria justiça, sabedoria e virtude, e nos imaginamos pouco menos que semideuses. Mas, se pelo menos uma vez começamos a elevar o pensamento para Deus e a ponderar quem é ele, e quão completa a perfeição de sua justiça, sabedoria e poder, a cujo parâmetro nos importa conformar-nos, aquilo que antes em nós sorria sob a aparência ilusória de justiça, logo como plena iniqüidade se enxovalhará; aquilo que mirificamente se impunha sob o título de sabedoria exalará como extremada estultícia; aquilo que se mascarava de poder se argüirá ser a mais deplorável fraqueza. Portanto, longe está de conformar-se à divina pureza o que em nós se afigura como que absolutamente perfeito.

3. O HOMEM ANTE A MAJESTADE DIVINA

Daqui esse horror e espanto com que, a cada passo, apregoa a Escritura terem os santos sido tocados e afligidos, sempre que sentiam a presença de Deus. Quando,pois, vemos aqueles que, não lhe considerando a presença, seguros e firmes se mostravam,mas, em manifestando ele sua glória, tão abalados e aterrados se quedavam,como se fossem prostrados pelo pavor da morte, mais até, a tragá-los, e quase aniquilados,deve concluir-se daí que o homem não é jamais tangido e afetado suficientementepelo senso de sua indignidade, senão depois de comparar-se com a majestade de Deus.
E desta consternação temos numerosos exemplos, tanto em Juízes quanto nos Profetas. Tanto assim, que essa expressão veio a tornar-se costumeira entre o povo de Deus: “Morreremos, pois que nos apareceu o Senhor.” De igual modo, também a história de Jó, com o fito de quebrantar os homens pelo reconhecimento de sua estultícia, fraqueza e corrupção, sempre o argumento mais importante é extraído da descrição da divina sabedoria, poder e pureza [Jó 38.1–40.5]. E não sem razão, pois vemos como Abraão melhor se reconhece como sendo terra e pó desde que se chegou mais próximo à contemplação da glória do Senhor [Gn 18.27]; como Elias não ousa, de face descoberta, atentar para a manifestação [1Rs 19.13], tanto a presença divina o moveu de terror!
E que haja de fazer o homem, podridão [Jó 13.28] e verme que é [Jó 4.7; Sl 22.6], quando até mesmo os próprios querubins deviam cobrir o rosto, movidos desse pavor? [Is 6.2]. É isto com efeito o que diz o Profeta Isaías: “Enrubescer-se-á o sol e confundir-se-á a lua, quando o Senhor dos Exércitos vier a reinar” [Is 24.23], isto é, quando revelar seu fulgor, e mais perto o trouxer, diante dele se cobrirá de trevas tudo quanto de mais esplêndido exista [Is 2.10, 19].

O Pecado Original - João Calvino

Posted by Josemar Bessa on Quinta-feira, Setembro 07, 2006 , under | comentários (0)



A QUEDA DE ADÃO E O PECADO ORIGINAL


Com muita razão o antigo provérbio conclama o homem a busca o conhecimento de si mesmo. Mas quanto mais importante seja este conselho, tanto mais diligentemente devemos guardar-nos contra o uso errôneo dele.

Certos filósofos o promoveram com a finalidade de levar o homem ao conhecimento da sua própria dignidade e excelência, de modo que possa ser enchido com vã confiança e orgulho; ao passo que o verdadeiro conhecimento de si mesmo consiste em conhecer os poderes e privilégios que Deus nos deu na Criação, como também a condição miserável à qual fomos reduzidos pela queda de Adão. Tal é o conhecimento próprio que a verdade de Deus recomenda e requer, cujo conhecimento nos despojará de toda a confiança em nosso poderes, e nos fará humildes, mostrando-nos que nada temos do que jactar-nos.

Tenho plena consciência que o esquema de doutrina que nos leva a pensar em nossas próprias excelências é mais popular do que aquele que nos mostra nossa pobreza vergonhosa e miserável. Nada é mais bem-vindo à mente humana do que a lisonja; e, portanto, quando o homem ouvi os louvores dos seus poderes naturais, está por demais pronto a escutar e crer. Tal é a cegueira do amor-próprio que facilmente nos persuadimos que nada há de odioso na natureza humana. Mas se prestarmos atenção a mestres que dirigem nossos pensamentos às nossas próprias excelências, ficaremos envolvidos na ignorância mais grosseira, e nunca poderemos chegar a um verdadeiro conhecimento de nós mesmos.

Segundo o julgamento da carne, o homem pensa que se conhece bem quando se anima como seus próprios poderes mentais e integridade de coração e se estimula à prática da virtude, à fuga do vício e à busca ardente de tudo quanto é honroso e de boa fama. Mas a pessoa que se examina conforme a regra da retidão divina não acha nada em si mesmo para encorajá-lo, e quanto mais agudamente olha para dentro de si, tanto mais desanimado fica, até perder toda a confiança em si mesmo.

No entanto, não é da vontade de Deus que nos esqueçamos da nobreza original da natureza implantada em nosso pai Adão. Não podemos, pois, considerar nosso estado original, ou o objetivo para o qual fomos criados, sem sermos impulsionados a pensamentos sobre a imortalidade e o reino de Deus. Mas tais lembranças tendem a nos humilhar mais do que exaltar. Qual, pois, foi nosso estado original? Aquele do queal caímos. Para que finalidade fomos criados? Aquela que agora carecemos totalmente?

Consideremos então a natureza do pecado cometido por Adão; pois não deve ter sido nenhuma falha leva, mas sim uma iniqüidade detestável que acendeu a terrível ira de Deus contra a raça humana inteira. É infantil considerá-la, como muitos têm feito, como se fosse um mero ato de glutonaria.

Devemos olhar mais profundamente, A proibição contra o comer da árvore do conhecimento do bem e do mal era um teste de obediência, de modo que Adão, ao obedecer, pudesse demonstrar que estava disposto a sujeitar-se à autoridade de Deus. O próprio nome da árvore evidencia qual era o objetivo do mandamento, ou seja, que Adão estivesse satisfeito com sua situação, e não aspirasse afrontosamente erguer-se acima dela. Promessa de vida eterna enquanto comesse da árvore da vida, e terrível ameaça de morte se provasse da árvore do conhecimento do bem e do mal, tinham o desígnio de provar e exercitar sua fé. Daí, não é difícil perceber como foi que Adão atraiu sobre si a ira de Deus. Agostinho disse muito bem que o orgulho foi o início de todo o mal, visto que o homem poderia ter resistido se a ambição não atiçasse a procurar a exaltação ilícita. Mas recebemos mais luz sobre a questão por meio do relato que Moisés faz da tentação. Visto que a mulher foi levada pelo engano da serpente a descrer da Palavra de Deus e a desobedecê-la, fica evidente que o próprio início da queda era a desobediência, e isto é confirmado pelo ensino de Paulo quando nos diz que, pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores. E devemos observar que o primeiro homem revoltou-se contra o governo de Deus por desprezar a verdade e desviar-se para a falsidade; porque certamente quando desprezamos a Palavra de Deus lançamos de nós toda a reverência por Ele. Finalmente, a descrença abriu a porta à ambição, e a ambição deu à luz a rebelião.

Não é de se admirar que Adão arruinasse toda a sua posteridade pela sua queda, queda esta que perverteu o curso inteiro da natureza na terra e no céu. Todas as criaturas gemem, diz Paulo, estando sujeitas à corrupção, mas não voluntariamente. Elas sustentam parte do castigo oriundo do demérito do homem, para o uso de quem foram criadas. Se, portanto, Adão trouxe uma maldição sobre a criação inteira, nada há de contrário à razão sadia na declaração de que seu pecado é transmitido a toda a sua posteridade.

Esta é a doutrina da corrupção hereditária que os pais antigos chamavam de pecado original, sendo que por “pecado” queriam dizer a depravação da nossa natureza que era originalmente boa e pura. Negando esta verdade, Pelágio inventou o erro profano de que Adão, mediante seu pecado, danificou a si mesmo somente, e não lesou sua posteridade. Dessa forma Satanás astutamente esforçou-se para tornar a enfermidade incurável por meio de ocultá-la.

Mesmo assim, Davi confessa com clareza: “Eu nasci na iniqüidade, e em pecado, me concebeu minha mãe” (Sl 51.5) – E visto que é evidente que este fato não era peculiar a Davi, segue-se que todos nós nascemos no mundo infectados com o contágio do pecado; além disso, somos todos impuros e contaminados à vista de Deus antes de vermos a luz desta vida.

Na realidade, devemos sustentar que Adão não era somente o progenitor da natureza humana mas, num certo sentido era a raiz dela, e que, portanto, a humanidade inteira é considerada, com justiça, enfraquecida pela corrupção dele. Isto o apóstolo torna claro ao comparar Adão com Cristo. “... assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram” – assim também pela graça de Cristo a justiça e a vida nos são restauradas. Desse modo, como Cristo é a nossa salvação pela comunicação da justiça, semelhantemente Adão foi nossa reina pela comunicação da justiça, semelhantemente Adão foi nossa ruína pela comunicação do pecado. Doutra forma, que verdade poderia haver naquele dito de Paulo, de que éramos por natureza filhos da ira como os demais? Por natureza, não conforme criada por Deus, mas segundo a corrompida por Adão; porque seria absurdo fazer de Deus o autor da morte.

E agora, a fim de que não haja ambigüidade em nosso ensino, definamos o pecado original. Não tentarei discutir as várias definições que foram dadas por outros escritores, e sim simplesmente proporei uma que me parece ser a mais consentânea com a verdade. O pecado original, portanto, é a depravação hereditária e corrupção da nossa natureza, o qual se estendem a todas as partes da alma, tornando-nos em primeiro lugar merecedores da ira de Deus, e em segundo lugar produtores daquelas obras que as Escrituras chamam de “obras da carne” (Gl 5.19).

Somos tão corrompidos e pervertidos em toda parte da nossa natureza que, por causa dessa corrupção, estamos incriminados e condenados diante de Deus, a quem nada é aceitável senão justiça, inocência e pureza. Essa condenação não pode ser atribuída a falta de outro homem. Porque quando é dito que fomos feitos sujeitos ao julgamento divino pelo pecado de Adão, não devemos entender que isto significa que nós, sendo pessoalmente inocentes, temos de carregar a culpa da transgressão dele, pois a poluição do pecado, tendo procedido de Adão para a sua posteridade, reside em nós, e com justiça exige castigo. E por conseguinte, até mesmo as crianças pequenas, trazendo com elas sua própria condenação deste o ventre materno, estão culpadas diante de Deus com uma culpa que não é de outra pessoa, mas sim delas mesmas. O terceiro capítulo da Epístola aos Romanos nada mais é senão uma descrição do pecado original.

A Santa Ceia do Senhor - João Calvino

Posted by Josemar Bessa on Terça-feira, Setembro 05, 2006 , under | comentários (0)



A Santa Ceia do Senhor, e os Benefícios Conferidos por Ela



1. Porque Cristo instituiu a Ceia

Deus, depois de nos ter recebido em Sua família, não para servir-se de nós como criados, e sim para ter-nos no número de Seus filhos, a fim de conduzir-nos como um bom pai de família, que se preocupa com seus filhos e descendentes, e pensa no modo de sustentar-nos durante toda nossa vida. E não contente com isto, nos quis dar a segurança de Sua perpétua liberalidade para conosco, dando-nos um presente. Para este fim instituiu por meio de Seu Unigênito Filho outro sacramento; a saber; um banquete espiritual, no qual Cristo assegura que é o pão da vida (João 6:51) com o qual nossas almas são mantidas e sustentadas pela bem aventurada imortalidade.

E como é sobremodo necessário entender um tão grande mistério; e por ser tão profundo, requer uma explicação particular; e Satanás ao contrário, a fim de privar a Igreja deste inestimável tesouro, por muito tempo o manteve obscurecido, primeiramente com trevas, e depois com nuvens mais espessas; e, além disso tem suscitado discussões e disputas para desagradar aos homens. E posto que em nossos dias ele tem usado as mesmas armas e artifícios, me esforçarei em primeiro lugar para explicar o que se deve saber a respeito da Santa Ceia do Senhor, de uma forma que os ignorantes possam entender; e depois explicarei aquelas dificuldades nas quais Satanás tem procurado enlaçar o mundo.

O pão e o vinho são sinais de uma realidade espiritual. Antes de tudo, os sinais são o pão e o vinho; os quais representam o mantimento espiritual que recebemos do corpo e sangue de Cristo. Porque como no Batismo, ao regenerar-nos, Deus , nos incorpora a Sua Igreja e nos faz Seus por adoção, assim também temos dito que com este desempenha o papel de um zeloso pai de família proporcionando-nos continuamente o alimento com o qual nos conserva e mantém naquela vida que nos gerou com Sua Palavra; Agora bem, o único sustento de nossas almas é Cristo, e por isso nosso Pai Celestial nos convida para que venhamos a Ele, para que alimentados com este sustento possuamos dia após dia maior vigor até chegar por fim à imortalidade no céu. E como este mistério de nos unirmos com Cristo é por sua natureza incompreensível, Ele nos mostra a figura e imagem com sinais visíveis mui próprios de nossa débil condição. Mais ainda; como se nos desse um presente, nos dá tal segurança disso, como se O víssemos com os nossos próprios olhos; porque esta semelhança tão familiar: que nossas almas são alimentadas com Cristo, exatamente igual o pão e o vinho natural alimentam nossos corpos, penetra nos entendimentos, por mais rudes que sejam.

Vemos pois para que fim este sacramento foi instituído; a saber, para nos assegurar que o corpo do Senhor foi, uma vez por todas, sacrificados por nós, de tal maneira que agora o recebemos e ao recebermos sentimos em nós a eficácia deste único sacrifício. E desta forma, que Seu sangue de tal maneira tem sido derramado por nós, que nos possa servir de bebida perpetuamente. Isto é o que dizem as palavras da promessa, que ali se adicionam: ‘’Tomai, comei, este é o meu corpo, que é dado por vós’’ ( Mt. 26:26; Mc 14:22; Lc 22:19; 1 Cor. 11;24). Assim, nos manda que tomemos e comamos o corpo que uma vez foi oferecido para nossa salvação, a fim de que tenhamos a plena confiança de que a virtude deste sacrifício se mostrará em nós. E por isso chama o cálice, pacto em seu sangue; porque de certa forma renova o pacto que uma vez fez com o Seu sangue, ou melhor dizendo, continua realizando no que concerne a confirmação de nossa fé, sempre que nos dá seu preciso sangue para que o bebamos.


2– Os frutos da Santa Ceia

Nossas almas podem obter deste sacramento grande fruto de confiança e doçura, pois temos testemunho de que Jesus Cristo, de tal maneira é incorporado a nós, e nós a Ele, que tudo quanto é Seu podemos chamar de ‘’nosso’’. E tudo quanto é nosso, podemos dizer que é Seu. Por isso com toda segurança nos atrevemos a nos assegurar de que a vida eterna e o reino dos céus no qual Cristo entrou não pode deixar de ser nossos, assim com não pode deixar de ser d’Ele. ; e, pelo contrário, não podemos ser condenados pelos nossos pecados, posto que ele nos tem absolvido de todos, tomando-os sobre Si e desejando que lhes fossem imputados, como se Ele os houvesse cometido. Tal é a admirável troca e substituição que Ele, meramente por Sua infinita bondade, quis fazer conosco. Ele, aceitando toda nossa pobreza, nos tem transferido todas as suas riquezas, tomando sobre si nossas fraquezas, nos tem feito forte com Sua virtude e potência, recebendo em Si nossa morte, nos tem dado a Sua imortalidade; carregando todo o peso dos nossos pecados, debaixo dos quais estávamos em agonia, nos tem dado Sua justiça para que nos apoiemos n’Ele, descendo a terra nos tem aberto o caminho para chegar ao céu, fazendo-se filho do homem, nos tem feito filhos de Deus.


3– A Ceia demonstra nossa redenção e que Cristo é nosso

Todas estas coisas Deus nos tem prometido plenamente neste sacramento, que devemos estar certos e seguros que nos são simbolizadas nele, nem mais nem menos que se Cristo estivesse presente e o víssemos com os nossos próprios olhos, e o tocássemos com as nossas mãos. Porque Sua Palavra não pode falhar nem mentir: Tomai, comei, este é o meu corpo que é dado por vós; este é meu sangue que é derramado para a remissão de vossos pecados. Ao mandar que o tomem, dá a entender que é nosso ao ordenar que o comam e que bebam, mostra que se torna uma substância conosco. Quando diz: Este é o meu corpo, entregue por vós; este é o meu sangue, derramado por vós, nos declara e nos ensina que eles não são tão Seus como nossos, pois os têm tomado e deixado, não para Sua comodidade, e sim por amor a nós e para nosso proveito.

Devemos notar diligentemente, que quase toda virtude e força do sacramento consiste nestas palavras: que por vós é entregue; que por vós se derrama; porque de outra maneira não nos serviria de grande coisa que o corpo e o sangue do Senhor nos fosse servido agora, se não houvessem sido entregues de uma vez por todas para a nossa salvação e redenção. E assim nos são representados pelo pão e vinho, para que saibamos que não somente são nossos, e sim que também nos concedem a vida e o sustento espiritual. Já temos advertido que pelas coisas corporais que se propõem devemos dirigir-nos segundo uma certa proporção e semelhança, às coisas espirituais. E assim quando vemos que o pão nos é apresentado como um símbolo e sacramento do corpo de Cristo, devemos recordar em seguida a semelhança de que como o pão sustenta e mantém o corpo, de mesma maneira o corpo de Jesus Cristo é o único mantimento para alimentar e vivificar a alma.. Quando vemos que nos é dado o vinho como símbolo e sacramento do sangue, devemos considerar para que serve o vinho ao corpo e que bem este lhe faz, para que entendamos que o mesmo faz o sangue de Cristo em nós: nos confirma, conforta, regozija e alegra. Porque se considerarmos atentamente que proveito obtemos do fato de que o corpo sacrossanto de Cristo tenha sido entregue e Seu precioso sangue derramado por nós , veremos claramente , que o que se atribui ao pão e ao vinho lhes convém perfeitamente segundo a analogia e semelhança a que aludimos.


4. Cristo é nosso pão e nossa bebida de vida

Não é, pois, o principal do sacramento dar-nos simplesmente o corpo de Jesus Cristo; o principal é selar e firmar esta promessa na qual Jesus Cristo nos disse que Sua carne é verdadeira comida, e Seu sangue bebida, mediante os quais somos alimentados para a vida eterna, e nos assegura que Ele é o pão da vida, do qual o que tivesse comido, viverá eternamente. E para isto, quer dizer, para selar a mencionada promessa, o sacramento nos remite à cruz de Cristo, onde esta promessa tem sido de todo realizada e cumprida. Porque não comemos a Jesus Cristo de maneira apropriada, a menos que O tenhamos como tendo sido crucificado, enquanto com vívida apreensão, percebemos a eficácia de Sua morte. Porque Ele se chama pão da vida, não por causa do sacramento, como muitos falsamente têm entendido, mas porque nos tem sido dado como tal pelo Pai; e se nos mostra tal, quando se havendo feito partícipe de nossa condição humana mortal, nos fez participantes de sua divina imortalidade; quando se oferecendo em sacrifício, tomou sobre si toda nossa maldição, para encher-nos de Sua bênção; quando com Sua morte devorou e tragou a morte; quando em Sua ressurreição, ressuscitou com glória e incorrupção a nossa carne corruptível, da qual Ele se havia revestido.


5. Recebemos a Cristo, pão da vida, no Evangelho e na Ceia

Resta somente que tudo isto se torno nosso, por aplicação. Isto é feito por meio do evangelho, e mais claramente pela Santa Ceia, onde Cristo oferece a Si mesmo a nós, com todas as Suas bênçãos, e O recebemos em fé. O sacramento, portanto, não faz que Cristo se torne pela primeira vez o pão da vida; mas, ele nos recorda que Cristo foi feito o pão da vida, para que constantemente O comamos, ele nos dá o gosto e o sabor deste pão, e nos faz sentir sua eficácia. Porque nos assegura que tudo isto que Jesus Cristo fez e padeceu, foi para nos vivificar. E além do mais, que esta vivificação é eterna. Porque como Cristo não seria o pão da vida, se uma vez não houvesse nascido, morte e ressuscitado por nós, assim também é mister que a virtude destas coisas seja permanente e imortal, a fim de que recebamos o fruto das mesmas.

Isto o expõe mui bem em São João, quando disse: "Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá para sempre; e o pão que eu der é a minha carne, que eu darei pela vida do mundo" (João 6:51); onde sem dúvida alguma, demonstra que Seu corpo havia de ser pão para dar a vida espiritual às nossas almas, em quanto o devia entregar à morte por nossa salvação. Porque Ele O deu uma vez por pão, quando O entregou para ser crucificado pela redenção do mundo; e O dá a cada dia, quando pela Palavra do Evangelho se oferece e apresenta, para que participemos dEle, visto que foi crucificado por nós; e, por conseguinte, sela um tal participação com o mistério de Sua Santa Ceia; e quando interiormente cumpre o que externamente significa.

Não despojemos os sinais de sua realidade. Comungar não é somente crer. Não há ninguém, a não ser que careça absolutamente de sentimentos religiosos, que não admita que Jesus Cristo é o pão da vida, com o qual os fiéis são sustentados para a vida eterna; porém, o que não estão de acordo, é no modo de se realizar tal participação.

Há alguns que numa palavra definem que comer a carne de Cristo e beber Seu sangue não é outra coisa, senão crer nEle. Porém, a mim me parece que o mesmo Cristo quis dizer, neste notável sermão, algo muito mais alto e sublime, ao recomendar-nos que comamos Sua carne; a saber, que somos vivificados pela verdadeira participação que nos dá nEle, a qual se significa pelas palavras comer e beber, a fim de que ninguém pensasse que consistia num simples conhecimento. Porque, como o comer e beber, e não o simplesmente mirá-lo, é o que dá sustento ao corpo, assim também é necessário que a alma seja verdadeiramente partícipe de Cristo, para ser mantida na vida eterna.


Novas Revelações? - Sola Scriptura - João Calvino

Posted by Josemar Bessa on Terça-feira, Agosto 29, 2006 , under | comentários (0)



AQUELES QUE NEGLIGENCIAM AS ESCRITURAS, E PROCURAM REVELAÇÕES NOVAS, TRANSTORNAM TODOS OS PRINCÍPIOS DA PIEDADE.

Certos homens tolos surgiram recentemente, os quais orgulhosamente fingem ser guiados pelo Espírito e desprezam a simplicidade daqueles que ainda se apegam à “letra morta – letra que mata”. Gostaria que me dissessem qual é o espírito cujo sopro os leva a uma altura tão estonteante para que ousem menosprezar a doutrina das Escrituras como sendo infantil e desprezível.

Se responderem que é o Espírito de Cristo, quão absurda é a presunção! Eles mesmos devem reconhecer que os apóstolos e os crentes primitivos foram iluminados por aquele Espírito; no entanto, nenhum deles aprendeu dEle a desprezar a Palavra de Deus; mas todos a consideravam com a mais profunda reverência. E isto concorda com a predição de Isaías: “O meu Espírito, que está sobre Ti e as minhas palavras, que pus na tua boca, não se desviarão da tua boca nem da boca da tua posteridade, nem da boca posteridade da tua posteridade, diz o Senhor, desde agora e para todo o sempre” (Is 59.21).

O profeta predisse, portanto, que no reino de Cristo seria a mais alta felicidade da Sua Igreja ser guiada tanto pela Palavra quanto pelo Espírito de Deus. Logo, concluímos que estes zombadores ímpios separam aquilo que o profeta juntara por um vínculo sagrado. Além disso, embora Paulo tenha sido arrebatado até o terceiro céu, não cessou de fazer uso proveitoso da lei e dos profetas, e exortou a Timóteo a dar a atenção à leitura. Ademais, ele atribui honra singular às Escrituras ao dizer que são úteis: “para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra” (2Tm 3.16-17).

Certamente é o máximo da maldade e da loucura atribuir um uso rápido e temporário àquelas Escrituras que guiam os filhos de Deus até o fim da sua viagem. Aqueles fanáticos teriam bebido de um espírito diferente daquele que o Senhor prometeu aos Seus próprios discípulos? Um que não falaria de Si mesmo, mas sim relembraria o que o próprio Cristo ensinara verbalmente. Portanto, não é papel do Espírito prometido dar revelações estranhas e esquisitas, ou fabricar algum novo tipo de doutrina para nos desviar do evangelho que recebemos; pelo contrário, a função do Espírito é selar em nossos corações aquela mesma doutrina que o evangelho de Cristo nos entregou.

É claro, portanto, que os que desejam receber proveito e bênção do Espírito de Deus devem ser diligentes em ler as Escrituras e em ouvir sua voz. Assim sendo, Pedro recomenda o zelo daqueles que prestam atenção à palavra da profecia, embora os escritos dos profetas pudessem ter sido considerados ultrapassados, ‘pela nova luz do evangelho’ (2Pe 1.19). Se, por outro lado, alguém descarta a sabedoria da Palavra de Deus e impinge sobre nós uma outra doutrina, podemos suspeita-lo, com justiça, de ser vaidoso e falso. O próprio Satanás se transforma em anjo de luz; como, pois, podemos curvar-nos diante da autoridade de qualquer espírito, a não ser que seja evidenciado por algum sinal como sendo o Espírito de Deus? Este sinal se manifesta na medida em que concorda com a Palavra do Senhor. Todavia, estes infelizes deliberadamente se desviam para sua própria ruína, procurando orientação do seu próprio espírito ao invés do Espírito do Senhor.

Argumentam que é uma indignidade ao Espírito de Deus que Ele – Ele que está acima de todas as coisas – seja sujeito às Escrituras. Mas, pergunto, é um desonra ao Espírito Santo ser em todas as instâncias o que Ele é – sempre consistente, sempre imutável? Se, na realidade, procurássemos testar o Espírito por qualquer regra estabelecida pelos homens ou pelos anjos, haveria certa força nesta acusação para desonra-lo; mas se O compararmos com Ele mesmo, como se pode dizer que O estamos desonrando? A verdade é que o Espírito se alegra em ser reconhecido pela semelhança que tem com Sua própria imagem imprimida por Ele sobre as Escrituras. Ele é o Autor das Escrituras e não pode mudar; logo, sempre deve permanecer tal qual Se revelou ali.

Quanto à objeção capciosa de que estamos escravizados à letra que mata, os que empregam tal linguagem são culpados de desprezarem a Palavra de Deus. Quando Paulo disse que a letra mata (2Cor 3.6), estava se opondo a certos falsos apóstolos que ainda se apegavam alei e que teriam privado o povo do benefício da nova aliança, na qual Deus declara que colocará Sua lei nas mentes dos fiéis, e que a escreverá em seus corações. Segue-se, portanto, que a lei do Senhor é uma letra morta que mata quando ela é separada da graça de Cristo, e que simplesmente soa ao ouvido sem tocar o coração; por outro lado, se for poderosamente implantada no coração pelo Espírito e se proclama a Cristo, é a palavra da vida, a qual converte as almas dos homens e que dá sabedoria aos símplices. No mesmo capítulo, Paulo chama sua própria pregação de o ministério do Espírito, significando assim que o Espírito Santo permanece na verdade que revelou nas Escrituras, e somente revela Seu poder àqueles que tratam Sua Palavra com a reverência e honra a ela devida . E isto não está em desacordo com aquilo que eu disse antes, que a Palavra de Deus não ganha nossa confiança a não ser que seja confirmada pelo testemunho do Espírito; porque o Senhor ligou juntas, por um tipo de vínculo mútuo, a certeza da Sua Palavra e a autoridade do Seu Espírito.

Reverência verdadeira á Palavra domina nossos corações quando a luz do Espírito nos capacita a ver Deus nas Escrituras; e, por outro lado, damos boas-vindas sem temor de sermos enganados, àquele Espírito que reconhecemos pela Sua semelhança à Sua própria Palavra.

Os filhos de Deus sabem que Sua Palavra é o instrumento mediante o qual Ele comunica ao entendimento deles a luz do Seu Espírito; e não reconhecem nenhum outro espírito senão o Espírito que habitava nos apóstolos e falava através deles.

Tem Misericórdia de Mim - João Calvino

Posted by Josemar Bessa on Domingo, Agosto 27, 2006 , under | comentários (0)



Salmo 51.1-4
Do título deste salmo descobrimos a causa que levou à sua composição, o que virá alume imediatamente através de nossa consideração.

Por um longo período após sua melancólica queda, Davi parecia ter-se mergulhado numa profunda letargia espiritual; mas, ao despertar-se dela, através da repreensão de Nata, ele se encheu de auto-execração e humilhação aos olhos de Deus, e foi dominado pela ansiedade de testificar seu arrependimento a todos quantos o cercavam, e de deixar à posteridade alguma prova final dele.

Logo no início do Salmo, tendo seus olhos voltados para a hediondez de sua culpa, ele se anima a esperar pelo perdão, ao avaliar a infinita misericórdia de Deus. Isto ele enaltece em sublimes termos e com variedade de expressões, como alguém que sente merecer múltipla condenação.

Na parte subseqüente do Salmo, ele ora por restauração ao favor divino, estando cônscio de que merecia ter sido excluído para sempre e privado de todos os dons do Espírito Santo. Promete, caso lhe fosse concedido perdão, cultivar um profundo e grato senso dele (o perdão). Na conclusão, ele declara ser par o bem da Igreja que Deus atenda seu pedido; e, deveras, quando se considera a maneira peculiar em que firmou seu pacto de graça com Davi, não era possível sentir outra coisa senão que a comum esperança da salvação de todos fosse abalada diante da suposição de sua final rejeição

“Ao regente de música. Salmo de Davi, quanto Nata,o profeta, foi a ele depois que deitou-se com Batseba”.

QUANDO NATÃ, O PROFETA FOI A ELE – Faz-se expressa menção do profeta inda a Davi antes que o Salmo fosse escrito, provando, como faz, a profunda letargia em que ele teria caído. Era uma impressionante circunstância, que tão grande homem, e tão eminentemente dotado com o Espírito Santo, tivesse prosseguido neste perigoso estado por mais de um ano.

Nada senão a influência satânica, poderia esclarecer tal esturpor de consciência, ao ponto de leva-lo a desprezar ou a amenizar o juízo divino em que incorrera. Tal fato serve adicionalmente para caracterizar a inatividade em que caíra, de sorte que não parecia sentir qualquer compunção por seu pecado até a chegada do profeta. Temos aqui uma notável ilustração, ao mesmo tempo, da misericórdia divina, enviando Deus o profeta a regenerá-lo enquanto andava errante.

Por esse prisma, há uma antítese na repetição da forma verbal, FOI. Foi quando Davi procurou Batseba que Nata foi a ele. Mediante essa passo pecaminoso, ele manteve certa distância de Deus; e a bondade divina se exibiu notavelmente ao buscar sua restauração. Não cremos que Davi, durante este intervalo, vivesse completamente privado do senso de religião ao ponto de não reconhecer a supremacia do Ser Divino. Com toda probabilidade, ele continuou a orar diariamente, manteve-se engajado nos atos de culto divino, e almejava conformar sua vida à lei de Deus. Não há razão pra crer-se que a graça fosse totalmente extinta de seu coração; mas apenas que ele foi possuído de um espírito de enfatuação num ponto específico, e que laborava sob uma tão fatal insensibilidade, ao ponto de expor-se, naquele ínterim, à ira divina.

A graça, por mais fortes centelhas pudesse lançar noutras direções, foi esmaecida, por assim dizer, nesta. É natural que nos estremeçamos ao contemplarmos o fato de que um profeta tão santo e tão excelente rei, houvesse mergulhado em tal condição!

Que o senso de religião não se esvaíra totalmente de sua mente, prova-se pela maneira com foi afetado imediatamente ao receber a reprovação do profeta. Não fosse esse o caso, e ele não teria clamado como o fez: “Pequei contra o Senhor” (2Sm 12.13); nem teria tão profundamente se submetido, no espírito de mansidão, à admoestação e correção. Nesse aspecto, ele se põe como exemplo a todos quanto tenham porventura pecado contra Deus, ensinando-lhes o dever de humildemente aquiescerem-se com o chamado ao arrependimento, o qual pode ser-lhes dirigido por meio dos servos de Deus, em vez de permanecerem debaixo do pecado até que sejam surpreendidos pela vingança final do céu.

vv.1,2,
Tem misericórdia de mim, ó Deus, segundo a tua benignidade; segundo a multidão de tuas compaixões, apaga minhas transgressões. Multiplica lavar-me de minha iniqüidade e purifica-me de meu pecado.

1. TEM MISERICÓRDIA DE MIM - Davi começa, com já notamos, orando por perdão; e seu pecado, tendo-se agravado de tal forma, o leva a orar com inusitado fervor. Não fica satisfeito com apenas uma petição. Ao fazer menção da BENIGNIDADE DO SENNHOR, ele acrescenta a MULTIDÃO DE SUAS COMPAIXÕES, para notificar que uma misericórdia de um gênero ordinário não seria suficiente par um tão grande pecador.

Tinha ele orado para Deus ser-lhe favorável, simplesmente de conformidade com sua clemência ou bondade, mesmo que equivalesse a uma confissão de que seu caso era um extremo perverso; mas quando fala de seu pecado como remissível só através de incontável multidão das compaixões divinas, ele o representa com peculiarmente atroz. Há uma antítese implícita entre a grandeza das misericórdias buscadas por ele e a grandeza da transgressão que as requeria. Ainda mais enfática é a expressão que se segue: MULTIPLICA LAVAR-ME. Há quem traduza – herebeh – por um substantivo, mas isso afasta demais da forma peculiar da linguagem.

O tempo, segundo essa suposição, na verdade permanece o mesmo. Que Deus o lavaria ricamente, e com uma lavagem multiplicada; prefiro, porém, aquela forma de expressão que concorda melhor com o idioma hebreu. Isto, pelo menos, é certo à luz da expressão que ele emprega, ou seja, que ele sentia a mancha de seu pecado aprofundar-se nele e a desmandar lavagens multiplicadas.

Não como se Deus experimentasse alguma dificuldade em purificar o pior dos pecadores, senão que, por mais grave o pecado de uma pessoa seja, mais ardorosos naturalmente seus desejos serão por ser libertada dos terrores da consciência. A figura por si só, como todos bem sabemos, é de freqüente ocorrência nas Escrituras. O pecado lembra imundícia ou impureza a poluir-nos e a provocar-nos repugnância à vista de Deus, e a remissão dele é, portanto, apropriadamente comparada a LAVAGEM.

Esta é uma verdade que tanto deve enaltecer a graça de Deus em nós quanto nos encher de profunda aversão pelo pecado. Insensível, deveras, seria aquele coração que não se deixasse afetar por ele!

“Porque eu conheço minhas transgressões, e meu pecado está continuamente diante de mim. Contra ti, tão-somente contra ti, tenha pecado e fiz o que é mau à tua vista; para que sejas justificado quando falares e puro quando julgares".

3. Porque eu conheço meus pecados – Ele agora revela a razão por que implora perdão com tanta veemência, e isto provém da dolorosa inquietude que seus pecados lhe causaram, e a qual só poderia ser mitigada ao obter reconciliação com Deus. Isso prova que sua oração não procedia de dissimulação, como se poderão encontrar muitos enaltecendo a graça divina em termos sublimes, ainda que, na realidade, pouco se preocupem com ela, sem jamais sentirem o amargor de se exporem ao desprazer divino.

Davi, ao contrário, declara que está sujeito, em virtude de seu pecado, a constante angústia mental, e é isto que comunica tal fervor às suas súplicas. À luz de seu exemplo podemos aprender que isso só se dá com aqueles que buscam a reconciliação com Deus de uma forma correta. É como se tivessem sua consciência ferida com forte senso de pecado, e não conseguem encontrar descanso enquanto não tiveram obtido a certeza da misericórdia divina. Jamais aplicaremos seriamente o perdão divino, enquanto não tivermos obtido uma visão tal de nossos pecados, que nos inspire terror.

Quanto mais facilmente nos sentimos satisfeitos com nossos pecados, mais provocamos a punição divina com maior severidade; e se realmente desejamos que nos provenha absolvição de suas mãos, então devemos fazer mais que confessar verbalmente nossa culpa; devemos estabelecer um rígido e formidável escrutínio pra o caráter de nossas transgressões.

Davi diz simplesmente que confessaria seus pecados ao homem, mas declara que nutre um profundo senso íntimo deles, e esse intenso senso deles o encheu da mais pungente angústia. Tal senso era de um espírito muito diferente daquele dos hipócritas que exibem completa indiferença pra com tal assunto; ou, quando se sentem incomodados, tratam de sepultar a lembrança dele. Davi fala de seus pecados no plural. Sua transgressão, embora oriunda de uma fonte, se complicara, adicionando, além de adultério, a traição e a crueldade; nem foi um único homem a quem ele traíra, mas a todo o exército que fora convocado para o campo em defesa da Igreja de Deus. Portanto, ele reconhece muitos pecados peculiares a envolve-lo.

4. Contra ti, tão-somente contra ti, tenho pecado – A opinião de alguns é que neste passo o salmista chama a atenção pra a circunstância do seu pecado, embora fosse cometido contra o homem, tendo sido ocultado da vista humana, porém não da vista de Deus.

Ninguém tomou conhecimento do duplo crime que infligira a Urias, nem da devassa maneira como expusera seu exército ao perigo; e sendo seu crime desconhecido dos homens, poderia dizer que o havia cometido exclusivamente contra Deus. Segundo outros, Davi, neste passo, notifica que, por mais profundamente tivesse consciência de haver injuriado os homens, ele principalmente se angustiava por haver violado a lei de Deus.

Eu, porém, concebo sua intenção como sendo esta: embora todo o mundo o perdoasse, sentia que Deus era o Juiz a quem teria de enfrentar, que a consciência o atraíra ao seu tribunal, e que a voz do homem não poderia administrar-lhe nenhum lenitivo, por mais que este estivesse disposto a perdoar, ou a escusar, ou a lisonjear. Seus olhos e toda sua alma estavam voltados para Deus, indiferente do que o homem pudesse pensar ou dizer concernente a ele. Para alguém que se vê assim esmagado pelo senso do pavor, de ser odioso ante a sentença divina, não há necessidade de outro acusador. Deus para ele vale mais que mil.

Há sobejas razões pra se crer que Davi, a fim de impedir sua mente de acomodar-se numa falsa paz pelas lisonjas de sua corte, apossou-se do juízo divina em sua ofensa e sentiu que isso era em si mesmo um intolerável fardo, mesmo pressupondo que escaparia incólume das mãos de seus semelhantes. Este deve ser o exercício de todo genuíno penitente. Pouco importa granjear nossa absolvição no tribunal do juízo humano, ou escapar ileso do castigo através da conivência de outrem, visto que temos de sofrer com uma consciência a acusar-nos diante de um Deus ofendido.

E é provável que não haja melhor remédio contra a decepção na questão de nossos pecados do que volver nossos pensamentos pra os recônditos de nosso ser, e depois concentra-los em Deus, e mortifica toda e qualquer imaginação autocomplacente num punçante senso do desprazer divino. Diante de um violento processo de interpretação, alguns nos fariam ler a segunda cláusula deste versículo assim:Para que sejas justificado quando falares – em conexão com o primeiro versículo do Salmo, e considerar que o mesmo não pode referir-se à sentença imediatamente precedente. Não dizer, porém, que isto interrompe a ordem dos versículos, que sentido poderia alguém aplicar à oração como então ocorre: Tem misericórdia de mim, pra que sejas puro quando julgares? Etc. - Qualquer dúvida sobre o significado das palavras, contudo, é completamente removida pela conexão em que são citadas na Epístola de Paulo aos Romanos ( 3.3,4) : “Que importa se alguns deles foram infiéis? Sua infidelidade anulará a fidelidade de Deus? De modo algum! Seja Deus verdadeiro, e todo homem mentiroso. Como está escrito: Para que sejas justificado em tuas palavras e prevaleças quando julgares”.

Aqui as palavras que se acham diante de nós são citadas pra provar-se a doutrina de que a justiça de Deus é evidente mesmo nos pecados dos homens, e sua verdade, na falsidade deles.

Para termos um claro discernimento de seu significado, é mister que ponderemos sobre o pacto que Deus fez com Davi. Havendo a salvação do mundo inteiro, em certo sentido, sido depositada com ele mediante este pacto, os inimigos da religião poderiam aproveitar a ocasião para exclamarem à vista de sua queda: “Aqui está uma coluna arruinada da Igreja, a qual agora converteu-se no miserável remanescente cujas esperanças repousam em sua santidade! Nada poderia ser mais conspícuo do que a glória pala qual ele fora distinguido, a qual é agora uma marca de profunda desgraça a que fora ele reduzido! Quem, diante de tão grosseira queda, buscaria salvação em seu descendente?” Cônscio de que tais tentativas pudessem impugnar a justiça de Deus, Davi lança mão desta oportunidade para justifica-la, assumindo toda a culpa da transação. Ele declara que Deus era justificado QUANDO FALAVA - não quando comunicou as promessas do pacto, embora haja quem entenda as palavras assim, mas ele teria sido justificado em pronunciar a sentença de condenação contra em virtude de seu pecado, o que não poderia ter feito senão por sua gratuita misericórdia.

Duas formas de expressão são aqui empregada, as quais têm o mesmo significado: PARA QUE SEJAS JUSTIFICADO QUANDO FALARES, E SEJAS PURO QUANDO JULGARES. Quando ao fato de Paulo, na citação já referida, ter alterado a última cláusula, e pode até parecer ter ele dado uma nova direção ao sentimento contido no versículo, mostrarei brevemente com as palavras eram aplicáveis ao propósito pelo qual foram citadas por ele.

Ele as usa para provar que a fidelidade divina permanecia intocada pelo fato de haverem os judeus quebrado o pacto, e caíram da graça que ele havia prometido. Ora, à primeira vista, pode não parecer que contenham a prova alegada. Mas sua conveniência será imediatamente vista se refletirmos sobre a circunstância para a qual já chamei a atenção.

Na queda de alguém que era tão grande coluna da Igreja, tão ilustre como profeta e como rei, como Davi o fora, não podemos senão crer que muitos ficaram abalados e titubeavam em sua fé nas promessas. Muitos provavelmente se dispuseram a concluir, considerando a estreita relação em que Deus adotara Davi, que ele estava, até certo ponto, implicado em sua queda. Davi, contudo, repele insinuação tão injuriosa à honra divina, e declara que, embora Deus o lançasse de cabeça para baixo na destruição eterna, sua boca só se fecharia ou se abriria para reconhecer a divina e intocável justiça.

A única saída que o apóstolo tinha para essa passagem, em sua citação, consiste que usar ele o verbo JULGAR num sentido passivo, e ler assim: PARA QUE VENÇAS, em vês de PARA QUE SEJAS PURO. Nisto ele segue a Septuaginta, e é notório que os apóstolos não usavam os verbos com exatidão em suas citações do Velho Testamento. Basta-nos que fiquemos satisfeitos com o fato de que a passagem corresponde ao propósito para o qual ela foi evocada pelo apóstolo.

A doutrina geral que recebemos da passagem consiste em que todo e qualquer pecado que os homens cometam lhes será de inteira responsabilidade, e jamais poderá comprometer a justiça divina.

Os homens estão sempre dispostos a denunciar a administração divina, quando a mesma não corresponde à lógica do senso e razão humanos. Deus, porém, em qualquer tempo, ergue pessoas da mais profunda obscuridade à mais elevada distinção, ou, em contrapartida, permite que pessoas ocupem a mais conspícua condição para a seguir serem subitamente precipitadas para longe dela, para aprendermos do exemplo que é aqui posto diante de nós, e podemos julgar o procedimento divino com sobriedade, modéstia e reverência, e descansar satisfeitos com o fato de que ele é santo, e que suas obras, tanto quanto suas palavras, são caracterizadas por infalível retidão. A conjunção no versículo, PARA QUE – PARA QUE SEJAS JUSTIFICADO, denota não tanto causa mas conseqüências. Não foi a queda de Davi, propriamente dita, que fez a glória da justiça divina se realçar. Não obstante, embora os homens, quando pecam, pareçam obscurecer a justiça divina, ela emerge da espúria tentativa para brilhar mais que nunca, sendo a peculiar obra de Deus fazer que das trevas resplandeça a luz.

A Veracidade das Escrituras - João Calvino

Posted by Josemar Bessa on Quarta-feira, Agosto 23, 2006 , under | comentários (0)



HÁ PROVAS SÓLIDAS E RACIONAIS QUE SERVEM para confirmar a veracidade das sagradas Escrituras

A não ser que os homens possuam a certeza da qual falei, certeza esta que é mais alta e mais forte do que aquela que a razão humana possa oferecer, é vão defender a autoridade das Escrituras por argumentos ou estabelecê-la pela aprovação da Igreja; pois a não ser que este fundamento seja posto, a incerteza permanecerá no coração.

Por outro lado, uma vez que tenhamos abraçado as Escrituras de uma forma que não fazemos como nenhum outro livro, com uma reverência à altura da dignidade delas, aquelas considerações que originalmente eram insuficientes para convencer nossos corações agora se tornam muito benéficas a nossa fé. Ficamos maravilhosamente consolidados quando consideramos a ordem e o arranjo de suas doutrinas, a bela concordância de todas as suas partes e outros aspectos que as revestem de majestade. E nossos corações ficam ainda mais consolidados quando observamos que nossa admiração é exercitada, não pelas belezas da linguagem, e sim pela dignidade das coisas reveladas. É, pois, uma providência singular da sabedoria de Deus que os mistérios sublimes do reino dos céus fossem revelados, na sua maior porte, num estilo simples e humilde. Se tivessem sido adornados com o esplendor da eloqüência, os ímpios teriam feito a objeção capciosa de que seu poder se devia apenas a beleza da linguagem em que foram apresentados.

Conforme as coisas são na realidade, a simplicidade natural e quase corriqueira das Escrituras pede de nós mais reverência do que toda a eloqüência dos oradores; e apenas podemos concluir que as verdades ensinadas são por demais poderosas para precisarem da ajuda artificial de palavras habilidosas. Assim sendo, o apóstolo Paulo argumenta que
a fé dos coríntios se firmava, não na sabedoria dos homens, e sim no poder de Deus, porque a pregação dele fora feita, não com palavras persuasivas da sabedoria humana, mas em demonstração do Espírito e de poder (1Co 2.4)

Vê-se que este poder é peculiar às Escrituras, pelo fato de que nenhum escrito humano, por mais bela que seja sua linguagem, pode afetar-nos da mesma maneira. Leia os escritos dos maiores oradores e filósofos do mundo; reconheço que te atrairão, deleitarão e comoverão as tuas afeições de modo maravilhoso; mas se te dedicares, em seguida, à leitura da Palavra de Deus, ela te afetará tão poderosamente, entrará tão profundamente no teu coração, tomará posse de tal maneira dos teus sentimentos mais íntimos que o poder da oratória e o da filosofia parecerão como nada em comparação a ela.

Admito que alguns dos profetas usam um estilo literário tão elegante, polido e até mesmo esplêndido, que sua eloqüência não é inferior àquela dos grandes escritores do mundo. Mediante tais exemplos o Espírito demonstrou que não foi falta de eloqüência que O induziu a empregar em outros lugares um estilo simples e tosco. No entanto, quer leias a bela dicção de Davi e Isaías, quer a linguagem sem adornos de Jeremias ou Amós, a majestade do Espírito é conspícua em todos os lugares. Todos os profetas ultrapassam em muitos os limites da excelência humana, e um leitor que não pode desfrutar dos escritos deles deve estar destituído de todo o bom gosto.

Até mesmo a antigüidade das Escrituras não está sem peso. Todo documento religioso é muito posterior à era de Moisés, embora muitas histórias fabulosas tenham sido contadas acerca da teologia do Egito. Nem sequer Moisés apresentou um Deus novo, mas sim o Deus eterno, acerca de quem os israelitas ouviram de seus pais mediante as tradições transmitidas de geração em geração; ele simplesmente chama-os de volta à aliança que Deus fizera com Abraão doutra forma, não teriam escutado.

O modo desinteressado de Moisés comprova sua honestidade. Quando, pois, registra a profecia de Jacó, não procura engrandecer sua própria tribo de Levi – pelo contrário, ferreteia-a com a marca da infâmia – “Simeão e Levi são irmãos; as suas espadas são instrumentos de violência. No seu secreto conselho não entra minha alma com a sua congregação minha glória não se ajunte” (Gn 49.5,6).

Certamente poderia ter deixado passar em silêncio esta parte, de tal maneira que salvasse a reputação da sua tribo, bom como seu próprio bom nome e o de toda a sua família. De modo semelhante, registra fielmente as murmurações de Arão e Miriã (Nm 12.1). Além disso, embora possuísse a mais alta autoridade, atribuiu a honra do sacerdócio, não aos seus próprios filhos, e sim aos filhos de Arão.

Os numerosos milagres que ele registra são tantas confirmações da autoridade das suas leis e da veracidade da sua doutrina; subiu em densas trevas ao monte, e ficou lá em solidão durante 40 dias; seu rosto brilhou com o sol; raios caíam em derredor, e o ribombar dos trovões enchia o ar; uma trombeta não tocada por boca humana tornou-se cada vez mais estridente; quando entrava no tabernáculo, uma nuvem acultava-o dos olhos do povo; sua autoridade foi milagrosamente vindicada pela terrível destruição de Coré, Datã e Abirão e toda a facção deles; a água jorrava da rocha diante da oração dele. Porventura tudo isto não é testemunho do próprio Deus à inspiração do Seu servo? Se alguém objetar que estou tomando por certo coisas que são discutíveis, a resposta é fácil: Quando Moisés proclamou todas estas coisas diante da congregação de Israel, como teria sido possível para ele impor um falso relato sobre aqueles que foram testemunhas oculares das cenas referidas? Será provável que ele veio diante do povo com acusações de descrença, rebeldia, ingratidão e outros crimes, e, ao mesmo tempo, reivindicou para sua doutrina a sanção de milagres que o povo nunca tinha visto? É também digno de nota que os milagres aos quais Moisés se refere são freqüentemente ligados com eventos desonrosos ao povo de tal forma que este teria protestado contra suas declarações se tivesse sido possível assim fazer. Fica claro, portanto, que os israelitas somente admitiram a veracidade das suas palavras porque estavam plenamente convictos dela pela sua própria experiência.

Agora aduzirei algumas provas da inspiração dos demais profetas. Nos tempos de Isaías, o reino de judá estava em paz, e até mesmo confiava na Caldéia com fonte de ajuda; mesmo assim, Isaías previu a destruição da cidade pelos caldeus e o exílio do povo na Babilônia.

Mencionou, também Ciro pelo nome, como um libertador que haveria de conquistar as caldeus e restaurar a liberdade aos cativos. Depois desta profecia, passaram-se mais de cem anos até que Ciro nascesse. Ninguém poderia então prever que haveria um certo Ciro, que guerrearia contra a Babilônia, que subjugaria seu poderoso império, e que poria fim ao cativeiro dos israelitas. Porventura esta simples narrativa, sem qualquer adorno de palavras, não nos mostra que os pronunciamentos de Isaías não eram conjecturas humanas, e sim os oráculos de Deus?

Acaso, quando Jeremias, pouco antes do povo ser levado para o cativeiro, predisse que a duração do cativeiro seria de 70 anos e previu a volta, não teria sido sua língua guiada pelo Espírito de Deus? A esta prova Isaías também apela, quando diz: “Eis que as primeiras coisas passaram e novas coisas eu vos anuncio; e, antes que venham à luz, vo-las faço ouvir” (Is 42.9). E Daniel não previu o futuro 600 anos antes e compôs suas profecias assim com se estivesse escrevendo uma história de eventos passados e bem conhecidos?

Estou ciente das objeções feitas por certos homens indignos, que desejam demonstrar sua própria esperteza ao assaltar a verdade de Deus. Perguntam: Quem pode provar que Moisés e os profetas realmente escreveram os livros que levam seus nomes? Ademais, até mesmo ousam levantar a questão da existência real de uma pessoa tal como Moisés. Todavia, se perguntássemos: Já existiu Platão, um Aristóteles, um Cícero, seríamos considerados culpados da estultícia mais absurda. A lei de Moisés foi milagrosamente preservada pela providência de Deus, e embora por algum tempo ficasse soterrada devido a negligência dos sacerdotes, não obstante, desde o dia em que o bom rei Josias a descobriu, ela tem estado nas mãos dos homens por sucessivas gerações.

Uma objeção tem sido fundamentada na história dos Macabeus. Visto que Antíaco ordenou a queima de todos os livros sagrados, de onde vieram então os exemplares que agora possuímos? Podemos facilmente voltar este argumento contra tais adversários e perguntar-lhes: nesse caso, em que oficina poderiam ser tão rapidamente fabricados? Pois é bem conhecido que tão logo a fúria da perseguição passou, foram achados em existência e foram reconhecidos como genuínos, sem contestação, por todos os piedosos que foram achados em existência, e foram reconhecidos com genuínos sem contestação, por todos os piedosos que foram criados na sua doutrina e que possuíam íntimo conhecimento do seu conteúdo. Quem pode deixar de reconhecer a maravilhosa obra de Deus na preservação deles naquela época e no suceder de todos os desastres subseqüentes dos judeus? E por qual instrumentalidade Deus conservou para nós a doutrina da salvação e da revelação de Cristo contidas na lei e nos profetas? Pelos judeus, os inimigos mais figadais do próprio Cristo.

Quando chegamos ao Novo Testamento, descobrimos que sua veracidade está firmada em alicerces igualmente sólidos. Três dos evangelistas relatam sua história num estilo humilde e sem adornos. Os orgulhosos freqüentemente desprezam esta simplicidade; não observam a substância da doutrina, que claramente prova que os escritores estão tratando de mistérios celestiais que transcendem a capacidade da mente humana. Mesmo assim, os sermões de Cristo, que são sumarizados de modo breve por estes evangelistas, facilmente argúem os seus escritores acima do desprezo. João, porém, trovejando das alturas, confunde, como através de um raio, a obstinação de todos quantos não conseguem trazer à obediência da fé. De modo semelhante, os escritos de Paulo e Pedro compelem nossa admiração devido sua celestial majestade. E, no entanto, Mateus veio da recebedoria de impostos, e Pedro e João dos seus barcos de pesca; enquanto que Paulo, de inimigo aberto e perseguidor sanguinário, foi transformado num novo homem, e ele afirma que foi compelido pelo mandamento celestial a sustentar a doutrina que dantes empenhou-se para destruir.

E não nos esqueçamos que, embora Satanás e o mundo tenham procurado de várias maneiras esmagar, transtornar ou obscurecer a Palavra de Deus, entretanto, ela sempre tem-se saído vitoriosa da luta e permanecido invencível.

Há outras razões, não poucas nem fracas, que confirmam a dignidade das Escrituras nos corações dos piedosos e que vindicam a sua autoridade contra as maquinações dos difamadores; mas tais razões não conseguem transmitir a fé até que nosso Pai celestial, ao revelar Seu poder na Sua Palavra, a ergue acima de suspeita. Realmente, é absurdo procurar provar para os descrentes que as Escrituras são a Palavra de Deus; porquanto isto somente pode ser percebido mediante a fé.

O TESTEMUNHO DO ESPÍRITO

Posted by Josemar Bessa on Sexta-feira, Agosto 18, 2006 , under | comentários (0)



AS ESCRITURAS PRECISAM SER RATIFICADAS Pelo testemunho do Espírito a fim de que sua autoridade seja inquestionável; e é uma ficção ímpia dizer que sua credibilidade depende do juízo da Igreja

Visto que Deus não fala diariamente do céu com uma voz audível, mas sim achou por bem dar-nos nas Escrituras um registro permanente de Sua verdade, é necessário para os crentes saber com certeza que as Escrituras nos vieram do deu. Ora, um erro muito pernicioso tem sido divulgado: que as Sagradas Escrituras devem toda a sua importância à sanção da Igreja; como se a eterna e inviolável verdade de Deus dependesse do julgamento do homem!

É asseverado que a Igreja decide qual reverência é devida à Bíblia e quais livros devem ser incluídos no cânon sagrado. O fato é que homens ímpios, desejando impor um jugo de tirania sobre seu próximo, não se preocupam com que absurdos se envolvem e aos outros, se apenas puderem fazer as pessoas simples acreditar que a Igreja é toda-poderosa. Mas, se as promessas do evangelho dependem do julgamento dos homens, o que será das consciências perturbadas que buscam uma esperança bem fundamentada na vida eterna?

As declarações de tais polemistas são bem refutadas por uma única declaração do apóstolo Paulo, que diz que a Igreja é edificada sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, pois fica evidente que se o alicerce da Igreja é a doutrina dos profetas e apóstolos, essa doutrina deve ter sido autenticada antes que se começasse a edificar a Igreja. Ora
, se a Igreja cristã foi originalmente alicerçada sobre os escritos dos profetas e sobre a pregação dos apóstolos, o recebimento da doutrina deles, como sendo verdadeira, deve ter precedido a edificação da Igreja. É, portanto, uma ficção vazia asseverar que a Igreja tem o poder de fazer-se juiz das Escrituras, como se a sua exatidão dependesse da decisão dela. A pergunta: “Como saberemos que vieram da parte de Deus, a não ser que tenhamos a certeza disto mediante a Igreja?” é tão estulta quanto a pergunta, “Como discerniremos a luz das trevas, o branco do preto, o doce do amargo?”

O argumento mais convincente empregado nas Escrituras sempre é que quem fala é Deus. “Assim diz o Senhor”. Os profetas e os apóstolos não se jactam da sua própria sabedoria, nem se demoram com aqueles raciocínios que geralmente obtêm respeito para um orador; eles propõem o nome sagrado de Deus, de modo que possa compelir a obediência dos homens de dúvidas, incertezas e escrúpulos, devemos fundamentar a fé nalguma coisa mais alta do que os argumentos, decisões e conjecturas dos homens, a saber, no testemunho intrínseco do Espírito de Deus. É verdade que se quiséssemos empregar argumentos, muitos poderiam ser propostos para comprovar inegavelmente que, se há um Deus no céu, as Escrituras procederam dEle.

Mas é coisa absurda procurar estabelecer por argumentos a credibilidade das Escrituras. Da minha própria parte, embora não possua grande habilidade ou eloqüência, ainda que me fosse necessário debater com os mais astutos entre os desprezadores de Deus, com homens que querem demonstrar sua destreza e sabedoria por meio de subverter a autoridade das Escrituras, tenho certeza que facilmente poderia silenciar suas bocas clamorosas. Todavia, mesmo, que alguém defendesse com sucesso a Palavra de Deus contra os ataques dos contraditores, não estabeleceria com isso no coração deles aquela fé inabalável que a piedade exige. Desde que os homens do mundo pensam que a religião consiste somente de opiniões, querem receber provas pela força dos argumentos que Moisés e os profetas falaram por inspiração divina. Respondo , porém, que o testemunho do Espírito é superior a todos os argumentos.

Deus na sua Palavra é a única testemunha adequada a respeito de Si mesmo, e, de maneira semelhante. Sua Palavra não será verdadeiramente crida nos corações dos homens até que tenha sido selada pelo testemunho do Seu Espírito. O mesmo Espírito que falou através dos profetas deve entrar em nosso coração para convencer-nos que eles entregaram finalmente a mensagem que Deus lhe deu. Este fato é demonstrado mais apropriadamente pelas palavras de Isaías: “O meu Espírito, que está sobre ti, e as minhas palavras que pus na tua boca, não se desviarão da tua boca nem da tua posteridade, diz o Senhor, desde agora e para todo o sempre” (Is 59.21).

Seja esta uma questão decidida: que os que são intimamente ensinados pelo Espírito Santo ponham firme confiança nas Escrituras; e que as Escrituras têm sua própria evidência, e que não podem licitamente ser sujeitadas a provas e argumentos, mas sim obtêm mediante o testemunho do Espírito aquela confiança que merecem. Pois embora exijam nossa reverência pela sua majestade, no entanto, não nos afeta realmente até que seja selada em nossos corações pelo Espírito Santo. Sendo iluminados pelo Seu poder já não devemos ao nosso próprio juízo, nem ao dos outros; o fato de crermos que as Escrituras vêm da parte de Deus; mas, por razões além do julgamento humano temos perfeita certeza, como se nelas contemplássemos a glória do próprio Deus, que elas foram transmitidas a nós da própria boca de Deus, pela instrumentalidade dos homens. Não procuramos argumentos ou probabilidades sobre os quais fundamentar nosso julgamento, mas sim sujeitamos nosso julgamento e nosso intelecto a elas com sendo algo acima e além de toda disputa. Nossa convicção, portanto, é tal que não requer argumentos; nosso conhecimento é tal é consistente com o melhor dos argumentos; porque nelas a mente descansa com mais segurança e firmeza do que em quaisquer argumentos. Nossos sentimentos neste caso são tais que somente podem brotar da revelação divina.

Somente falo daquilo que é experimentado por todo crente, a não ser que as palavras estejam aquém de uma explicação justa dessa experiência. Devemos, porém, lembrar-nos que Isaías profetizou (Is 53.1) que o braço do Senhor não seria revelado a todos.

ORIENTAÇÃO DAS ESCRITURAS

Posted by Josemar Bessa on Quinta-feira, Agosto 17, 2006 , under | comentários (0)



A FIM DE CHEGAR A UM VERDADEIRO conhecimento do Seu Criador; o homem precisa da orientação e do ensino das Sagradas Escrituras.

Embora o esplendor da glória de Deus revelada na criação nos deixe sem qualquer desculpa pra a ingratidão, precisamos de melhor ajuda para conhecermos corretamente nosso Criador. Por conseguinte, Ele deu-nos a luz da Sua palavra, como privilégio especial outorgado àqueles aos quais deseja tornar-Se mais intimamente conhecido. Um olho com vista defeituosa pode ser totalmente incapaz de ler duas palavras nem livro, por mais belamente que seja impresso; no entanto com a ajuda de óculos aquele olho começará a ler o livro com facilidade. Assim também as Escrituras esclarecem o conhecimento confuso que temos sobre Deus em nossas mentes, e O revelam claramente a nós. É, portanto, um dom peculiarmente precioso que Deus nos deu ao abrir Sua santa boca para nos dar a Sua Palavra, ao invés de nos deixar procurar o conhecimento dEle nas obras das Suas mãos. Não se deve duvidar que Adão, Noé, Abraão e outros filhos de Deus que viveram na antigüidade, tenham aprendido a conhecer Deus desta maneira, e que eram assim distinguidos do mundo descrente.

Ainda não estou falando da doutrina da fé, pela qual foram iluminados para a vida eterna, mas meramente daquilo que lhes ensinou o conhecimento do seu Criador. Realmente tiveram um conhecimento adicional dEle como seu Redentor na pessoa do Mediador, sem o qual não poderiam ter passado da morte para a vida; mas desde que ainda não estou tratando da Queda do homem, por enquanto não entrarei na questão da salvação.


Ora, se Deus deu a conhecer aos patriarcas mediante oráculos e visões, ou se lhes deu mediante a instrumentalidade humana Sua Palavra escrita, é claro que tinham certeza da doutrina que receberam e que foram plenamente persuadidos de que veio de Deus; pois Deus sempre colocou a veracidade da Sua Palavra acima de suspeita. No transcorrer do tempo, no entanto, a fim de que Sua Palavra permanecesse para o uso das gerações vindouras, foi do Seu agrado que as verdades reveladas aos pais fossem constituídas em forma de livro. Portanto, a lei foi dada e profetas depois foram levantados para fazerem exposição dela.

E embora o objetivo principal da lei e dos profetas fosse testificar de Cristo, ainda assim, as Escrituras serviram para distinguir o Deus verdadeiro, Criador do céu e da terra, da multidão inteira de deuses falsos. Por conseguinte, embora seja certo que o homem usasse seus olhos para contemplar a glória de Deus conforme é demonstrada no espetáculo esplêndido apresentado pela criação, ainda assim deve prestar ouvidos à Palavra de Deus para poder fazer bom progresso no conhecimento do seu Criador. Ninguém pode obter o mínimo gosto da doutrina certa e sadia a não ser que se torne aluno das Sagradas Escrituras.

Quando consideramos quão inclinada está a mente humana para esquecer-se de Deus, quão pronta a tudo tipo de erro, quão ansiosa para imaginar religiões novas e falsas, vemos claramente como foi necessário que a verdade divina fosse registrada por escrito.

E visto que Deus nos deu Sua Palavra para ensinar-nos a verdade, é de acordo com ela que devemos andar se realmente desejamos conhece-lO. Se nos desviarmos deste caminho nunca chegaremos ao alvo, não importa quão rapidamente corramos, visto que estaremos correndo ao longo de uma estrada errada. A glória da face divina é uma luz à qual nenhum homem pode aproximar-se (1Tm 6.16); e, portanto, nos acharemos num labirinto inextricável a não ser que sejamos guiados pelo fio da Palavra de Deus. É melhor manquejar ao longo desta estrada do que correr com a máxima rapidez em qualquer outra. Destarte, o profeta que nos diz que os céus proclamam a glória de Deus e que a sucessão constante de dias e noites proclamam Sua majestade, passa depois a falar da Palavra: “A lei do Senhor é perfeita, e refrigera a alma; o testemunho do Senhor é fiel e dá sabedoria aos símplices” (Sl 19). E, no mesmo sentido, Cristo disse à mulher samaritana que o povo dela e os gentios adoravam o que não conheciam, ao passo que somente os judeus adoravam o Deus verdadeiro.

O RESPLANDECER DO CONHECIMENTO DE DEUS

Posted by Josemar Bessa on Terça-feira, Agosto 15, 2006 , under | comentários (0)



O CONHECIMENTO DE DEUS RESPLANDECE NA estrutura do universo e no governo contínuo do mesmo.

Deus se revelou de tal maneira na estrutura do universo e Se manifesta de tal forma nele dia após dia, que os homens não podem abrir seus olhos se vê-los nas Suas obras. Sua essência é, na realidade incompreensível, e está oculta da percepção dos homens; mas em cada uma das Suas obras gravou marcas tão certas e evidentes da Sua glória que mesmo os mais simples e obtusos da raça humana não tem nenhuma desculpa pela sua ignorância dEle.

Logo, o salmista, falando da manifestação da glória de Deus na criação, diz com razão: Ele está vestido com a luz como uma roupa; colocou as vigas das Suas câmaras nas águas; as nuvens são Seu carro; cavalga as asas do vento; os ventos e os trovões são Seus mensageiros velozes. Na realidade, por onde quer que os olhos se volvam não encontram uma partícula da criação que não brilha com alguns raios da sua glória. Por esta razão, o Salmo 19 atribui linguagem às esferas siderais; e de modo semelhante, o apóstolo Paulo nos diz que Deus Se manifestou aos homens pelas obras das Suas mãos, de maneira que Suas coisas invisíveis, Seu eterno poder como também a Sua prórpria divindade, claramente se reconhecem, sendo compreendidas por meio das coisas que foram criadas. (Rm 1.19).

Estamos cercados por todos os lados pelas provas da maravilhosa sabedoria do Criador. Algumas delas são ocultas à observação comum, e somente podem ser trazidas à luz pela astronomia e ou outras ciências; mas outras compelem à atenção o observador mais simples. Os homens que possuem conhecimento científico podem penetrar mais detalhadamente nalguns dos segredos da sabedoria divina; mas a falta
deste conhecimento não impede os homens de verem aquele fino lavor nas obras de Deus que deveria constrangê-los a admirar o Autor delas. É verdade que a observação exata e científica é necessária para investigarmos o movimento dos corpos celestes, para determinarmos suas órbitas, para medirmos suas distâncias e para observarmos suas propriedades; mesmo assim, os mais incultos que somente têm seus olhos para ajudá-los, não podem deixar de ver a destreza divina que é revelada no número, na variedade e na ordem da hoste celeste. Portanto, fica claro que não há ninguém a quem Deus não revelou Sua sabedoria nas obras das Suas mãos. De modo semelhante, embora requeira agudeza para considerar com o cuidado de um anatomista a estrutura, a simetria, a beleza e o uso do corpo humano, é universalmente admitido que o arcabouço daquele corpo comprova a perícia admirável do seu Arquiteto. Desse modo, alguns dos filósofos antigos corretamente chamavam o homem de um “microcosmo”, um pequeno mundo, porque ele é uma amostra tão maravilhosa do poder, da bondade e da sabedoria de Deus. Verdadeiramente Deus não está longe de cada um de nós (At 17.27). Mas se não precisamos ir além do nosso próprio corpo para achar a obra de Deus, quão indesculpável é nossa preguiça se nos recusamos a buscá-lO!

Nisto aparece a vergonhosa ingratidão dos homens; contêm dentro das suas prórprias pessoas uma quantidade das obras distintas de Deus e dos Seus benefícios inestimáveis, e ficam inchados de orgulho por causa das dádivas, ao invés de atribuir louvor ao Doador. São compelidos, quer queiram quer não, a reconhecer que estas coisas são provas da Sua divindade, mas, mesmo assim, as suprimem. Nos dias atuais a terra está sobrecarregada com muitos monstros que não hesitam perverter os dons que Deus deu à natureza humana,e os usam para extinguir o Seu nome. Não dirão que o homem difere das feras por mero acidente, mas ao fazer da “natureza” a artífice de todas as coisas, põem Deus de lado. Vêem a habilidade primorosa que é revelada nos vários membros dos seus próprios corpos, desde seus olhos até às pontas das unhas, e a chamam de “obra da natureza”, ao invés de reconhecer que é a obra de Deus. Acima de todas as coisas, os movimentos rápidos da mente humana, sua faculdades esplêndidas, seus dons singulares testificam claramente do Criador; e contudo, os homens, como os gigantes caolhos da antigüidade, fazem uso destes poderes altaneiros para guerrear contra Deus. Que coisa! Todos os tesouros da sabedoria divina hão de conspirar para dirigir um “verme” de 1,60 m de altura, e Deus não há de ter voz ativa no governo do universo?

Há um ditado de Aristóteles que diz que a alma tem certas faculdades orgânicas que correspondem aos órgãos do corpo. Se este for o caso, não ofusca a glória do Criador; pelo contrário, ressalta-se. Algumas pessoas levianas, no entanto, fazem uso desta declaração para roubar a alma da sua imortalidade e para roubar Deus dos Seus direitos. Isto porque, sob o pretexto de alma ter faculdades orgânicas, ligam-na ao corpo de tal maneira que não possa existir sem o corpo; e ao dedicarem à natureza o seu louvor, suprimem, dentro das suas possibilidades, o nome de Deus. Entretanto, os poderes da alma estão longe de serem confinados àqueles que servem ao corpo. O que tem isto a ver com teu corpo – que medes a abóbada celeste, que enumeras os corpos celestes, que averiguas seus vários tamanhos, que aprendes suas distâncias, que estimas a sua velocidade, e que determinas as variações das suas órbitas? Em pesquisas nobres tais como estas, a alma não tem funções que são independentes do corpo? Além disso, as atividades diversificadas com que a alma atravessa a terra e o céu, liga o passado com o futuro, retém na memória aquilo que uma vez foi ouvido, e retrata para si mesma aquilo que deseja; a destreza com que excogita questões incríveis e traz à existências tantas artes maravilhosas; não são estes sinais seguros da obra de Deus no homem? Até no sono a mente continua em atividade; concebe muitos pensamentos úteis e vislumbra o futuro. O que devemos dizer acerca de tais coisas, senão que as marcas da imortalidade são indelevelmente impressas sobre a natureza humana? A própria razão, portanto, não nos compele a reconhecer um Criador? O que? Teremos nós o dom de discernir entre o certo e o errado, e não haverá Juiz no céu? Sobrará pra nós algum entendimento até mesmo enquanto dormimos, e não haverá um Deus desperto para governar o mundo?

Aquilo que alguns tagarelas falam acerca de uma inspiração secreta que vivifica o universo inteiro não é apenas fraco – é totalmente ímpio. Citam com aprovação as linhas célebres de Virgílio:

O céu, a terra, as planícies aquáticas do oceano,
A luz brilhante, e o orbe brilhante do dia,
São alimentados por um espírito que permeia seus membros,
Movimenta suas massa, e se mistura com sua forma.

Como pode a piedade ser produzida e nutrida nos corações dos homens por esta vã especulação acerca de um intelecto que anima e vivifica o universo? Alija o Deus verdadeiro, o objeto correto do nosso temor e adoração, e coloca algum poder fantasmagórico no Seu lugar. Admito, na realidade, que um homem bom possa dizer com boas intenções que a natureza é Deus; mas tal maneira de falar é áspera e imprópria. É melhor dizer que a natureza é uma ordem que Deus estabeleceu. Em questões de tal importância é um erro malicioso confundir Deus com as obras que fez, e com aquele curso da natureza que está sujeito à Sua vontade. Lembremo-nos, portanto, todas as vezes que consideramos nossa própria forma, que há um só Deus que governa todas as coisas, cuja vontade é que dependamos dEle, que creiamos nEle, e que O adoremos; pois nada pode ser mais contrário ao bom senso do que desfrutar daquelas dádivas excelentes permeadas pela bondade de Deus, e negligenciar o Autor delas, de cuja bondade depende sua continuidade.

Ademais, quantas manifestações ilustres do poder de Deus compelem a pensar nEle! Ele sustenta pela Sua própria palavra esta arcabouço ilimitado do céu e da terra; Ele sacode o céu conforme Seu próprio beneplácito mediante o ribombar do trovão, e o acende com chamas de raios que a tudo consomem; Ele perturba o ar com tempestades e procelas, e as aquieta num momento; Ele estabelece limites às ondas ameaçadoras do mar, chicoteia suas ondas com os ventos turbulentos até se enfurecerem, e novamente as acalma trazendo-as à paz. Estes testemunhos que a natureza fornece do poder de Deus são freqüentemente referidos nas Escrituras, especialmente no Livro de Jô e nas profecias de Isaías. E o poder de Deus nos leva a pensar na Sua eternidade; porque Aquele de quem todas as coisas procedem deve ser eterno e outo-existente. Mas se procurarmos saber por que Ele realizou toda a obra da criação, a única causa que poderemos achar será Sua própria bondade.

Encontramos provas igualmente claras do poder de Deus naquelas Suas obras que estão fora do curso normal da natureza. No governo da humanidade, Ele exerce Sua providência de tal maneira que, embora seja bondoso com todos os homens, ainda assim, revela de modo claro e constante sua bondade aos justos e Sua severidade aos ímpios. A mão de Deus às vezes é claramente vista no castigo do crime; e, com igual clareza, Ele mostra-Se o protetor e o vingador do inocente. Semelhantemente não fica obscurecida Sua justiça eterna pelo fato de que às vezes permite que os culpados triunfem por algum tempo, enquanto deixa os inocentes sofrerem a adversidade e a serem oprimidos pela malícia dos ímpios. Pelo contrário, quando Deus castiga um crime, devemos aprender disto que Ele odeia todos os crimes; e quando vemos que Ele deixa muitos sem castigo por enquanto, isto deve convencer-nos de que haverá um castigo no futuro.

Esta providência de Deus é ensinada no Salmo 107. Ali, o salmista nos conta como Deus dá ajuda maravilhosa e inesperada aos aflitos, protegendo os desgarrados no ermo e guiando-os no caminho certo, suprindo os famintos com alimento, libertando os presos do cativeiro, trazendo os náufragos para um porto seguro, curando os enfermos, fertilizando a terra e levantando os humildes enquanto os soberbos são derrubados. Com estes casos, o salmista mostra que os eventos que muitos atribuem as acaso realmente são indícios e provas do cuidado providencial de Deus; e acrescenta que os que são sábios, e que atentam para estas coisas, entenderão as misericórdias do Senhor.

Aqui, mais uma vez, deve ser observado que somos convidados a chegar a um conhecimento de Deus que não seja especulativo, vazio e infrutífero, mas sim, que seua substancial e frutífero, deitando raízes profundamente em nosso coração. Daí percebemos com o método certo de buscar a Deus é contemplá-lO em suas obras, e não inquirir presunçosamente quanto ao mistério da Sua essência.

O conhecimento de Deus que descrevi nos leva, forçosamente, a ter esperança numa vida futura. Quando, pois, percebemos que a atual demonstração da bondade e da severidade de Deus é somente de natureza inicial, e em certo sentido imperfeito, obrigatoriamente devemos concluir que é apenas um prelúdio de uma demonstração mais plena e perfeita de misericórdia e juízo no mundo do porvir.

E quando vemos os piedosos sofrerem aflições, ofensas, calúnias e repreensões às mãos dos ímpios, enquanto os ímpios vivem em prosperidade, conforto, sossego e dignidade, podemos inferir corretamente que haverá outra vida em que tanto a iniqüidade quanto a justiça receberão seu devido galardão. Podemos ter certeza de que o Deus que castiga os fiéis não deixará os ímpios escaparem aos golpes da Sua vingança. É apropriado o ditado de Agostinho, o qual diz: se todos os pecados fossem agora visitados com o castigo, poderíamos pensar que não haveria juízo vindouro; e que se nenhum pecado fosse imediatamente castigado, poderíamos pensar que não existe a providência divina.

Contudo, por mais claramente que Deus revele Seu poder imortal nas obras de Suas mãos, nossa tolice é tal que não o percebemos, nem tiramos proveito da lição. Quão poucos olham para a bela forma da natureza e pensam no Criador da mesma! Quão comumente os homens fazem referências aos eventos da vida cotidiana atribuindo-os ao acaso em vez de atribuí-los à providência de Deus!

Ora, devemos lembrar-nos de que todos aqueles que corrompem a pura verdade da religião, como necessariamente farão todos quantos seguem suas próprias opiniões, apostatam do único Deus verdadeiro. Por isso, Paulo disse aos efésios que eles estavam sem Deus até que tivessem aprendido do evangelho o que significa adorar o Deus verdadeiro. Em vão, portanto, brilham as obras da criação ao nosso redor como muitas lâmpadas para demonstrar a glória do seu Autor; elas, com todo o seu brilho não conseguem, de modo algum, guiar-nos no caminho certo. De fato, deixam-nos sem desculpa por nossa ignorância deliberada de Deus; mas precisamos de outro guia, de uma luz mais brilhante, para nos trazer ao verdadeiro conhecimento do nosso Criador. Desse guia passarei agora a falar.

O CONHECIMENTO DE DEUS NO CORAÇÃO DO HOMEM

Posted by Josemar Bessa on Segunda-feira, Agosto 14, 2006 , under | comentários (0)



O CONHECIMENTO DE DEUS É IMPLANTADO no coração do homem de modo natural.

Sustentamos ser fato indisputável que alguma consciência da existência de uma deidade está naturalmente arraigada na mente humana. O próprio Deus deu ao homem esta convicção, e constantemente a renova, de modo que o homem não possa pleitear a ignorância com desculpa pela sua falta de sujeição à vontade do seu Criador. Um escritor pagão (Cícero) nos contou que não há nação tão bárbara que esteja destituída da crença na existência de um Deus.

Visto, portanto que nunca houve um país, uma cidade ou um lar, sem algum senso de religião, temos nisto um tipo de confissão tácita de que o homem naturalmente sabe que há um Deus. Até mesmo a idolatria comprova este fato, pois vemos que o homem, por orgulhoso que ele seja, preferiria curvar-se diante de um toro de madeira ou pedra do que ser considerado destituído de um deus.

Portanto, é muito absurdo dizer, como dizem alguns, que a religião foi inventada pela astúcia e esperteza de alguns poucos, a fim de conservarem em servidão o povo comum. Reconheço que homens astutos tenham inventado muitos dispositivos na religião para fazer isso; mas nunca o teriam conseguido se não houvesse um instinto religioso profundo nas mentes dos homens. Nem sequer podemos crer que estes enganadores estavam pessoalmente destituídos de uma crença em Deus. Pois, embora tenha havido, e haja, homens que professam ser ateus, mesmo assim, de vez em quando são compelidos a sentir aquilo de que desejam esquecer.

Não lemos doutro desprezador da Deidade mais ousado do que Caio Calígula; ninguém, porém, tremia de modo mais objeto do que ele quando
aparecia algum sinal da ira divina. Destarte, embora os homens procurem esconder-se da presença de Deus, são presos como num laço, e estão compelidos, querendo ou não, a reconhecer Sua existência. Logo, concluímos que esta não é uma verdade que precisa ser aprendida na escola, e sim uma que cada homem aprende de si mesmo, e que não pode erradicar do seu coração, embora force todos os seus nervos para assim fazer.

ESTE CONHECIMENTO É ABAFADO OU CORROMPIDO, parcialmente pela ignorância e parcialmente pela maldade.

Ainda que a experiência testifique que algum germe de religião foi implantada em todos os homens pelo seu Criador, dificilmente uma pessoa entre cem cuida dele, e não há uma em quem amadureça e frutifique. Alguns se tornam vãos nas suas superstições, outros com perversidade deliberada afastam-se de Deus; mas todos desviam-se do verdadeiro conhecimento dEle, de modo que nenhuma verdadeira piedade permanece no mundo. Contudo, a sua estultícia não os livra da culpa, porque sua cegueira é acompanhada pela rebeldia e vaidade arrogante.

Isto é demonstrado pelo fato de que, na sua busca de Deus, não sobem acima do seu próprio nível, e sim O avaliam pela medida da sua própria tolice carnal, e se desviam para vâs especulações. Não pensam dEle de acordo com a revelação que dá de Si mesmo, e sim, entendem que Ele é conforme sua própria presunção precipitada O imagina. Logo, para sua destruição certa, não adoram o Deus verdadeiro, pelo contrário, adoram um sonho do seu próprio coração. Conforme Paulo diz expressamente “Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos” (Rm 1.22).

Quando Davi diz (Sl 14.1) – “Diz o insensato no seu coração. Não há Deus”, refere-se àqueles que sufocam em si mesmos a luz da natureza e deliberadamente se tornam brutais. Para tornar mais detestável a loucura deles, representa-os como totalmente negando a existência de Deus; pois embora admitam em palavras que há uma deidade, roubam-nO da Sua justiça e da Sua providência, como se Ele Se sentasse desocupado no céu. Davi é o melhor intérprete das suas próprias palavras, quando diz noutro lugar (Sl 36.2; 10-11) que não há temor de Deus diante dos olhos dos ímpios, e que se lisonjeiam nos seus maus caminhos com a imaginação de que Deus não os vê. Daquele que furta Deus do Seu poder, pode-se dizer verdadeiramente que nega que Ele existe. Deve ser observado, no entanto, que embora os maus lutam contra suas próprias convicções e se esforcem para banir Deus dos seus corações, e até mesmo gostariam de destroná-lo no céu, mesmo assim, Ele os arrasta de vem em quando para Seu tribunal de justiça, mediante a voz da consciência.

Estas considerações derrubam a defesa vazia que muitos levantam para sua própria superstição. Pensam que qualquer tipo de zelo religioso, por mais ridículo que seja, é suficiente por sua regra perpétua a vontade de Deus, e de que Ele é sempre semelhante a Si mesmo, e não um ser imaginário que pode ser alterado segundo o gosto de cada um.

A superstição zomba de Deus com falsidades, enquanto se esforça para agrada-lO. Agarra-se em observância às quais Deus já disse que não lhes dá valor, e despreza ou rejeita aquelas coisas em que Ele disse que Se deleita. Por isso, o apóstolo Paulo disse aos efésios que eles estavam sem Deus, enquanto andavam sem o conhecimento correto do único Deus verdadeiro. Realmente, se não conhecemos a Ele, faz bem pouca diferença se reconhecemos um Deus ou muitos; não tendo Ele por nosso Deus, nada mais temos senão um ídolo maldito.

A culpa dos pecadores também aparece no fato de que nunca pensam em Deus senão quando são obrigados a fazê-lo; o temor que têm dEle é servil e constrangidos afaze-lo; o temor que têm dele é servil e constrangido, causado pelos terrores do Seu julgamento, o qual, porque é inescapável, eles temem e odeiam. Estando avessos à justiça de Deus, desejariam subverter Seu trono de julgamento; no entanto desejando, se possível, evitar a aparência de que O desprezam, praticam alguma amostra externa de religião, enquanto se poluem com todos os tipos de vício, e acrescentam crime a crime, até que tenham quebrado a lei santa de Deus em todo ponto, e jogado aos ventos todas as exigências da Sua justiça. Ao passo que deve haver um curso regular de obediência a Ele na totalidade da vida deles, rebelam-se contra Deus em quase todas as suas obras, e depois procuram aplacá-lo com uns poucos e inúteis sacrifícios; e assim acontece que as trevas da iniqüidade apagam aquelas centelhas do conhecimento de Deus que naturalmente possuíam.

Na prosperidade, zombam de Deus e tagarelam contra Seu poder; quando porém, um surto de desespero os impulsiona, força-os a buscar a Deus, e os leva a proferir orações curtas, que comprovam que não tinham total ignorância dEle, e sim que presunçosamente abafavam o conhecimento dEle que estava implantando nos seus corações.

O CONHECIMENTO DE DEUS E DE NÓS MESMOS.

Posted by Josemar Bessa on Domingo, Agosto 13, 2006 , under | comentários (0)



A SABEDORIA VERDADEIRA E SUBSTANCIAL consiste quase inteiramente em duas coisas: o conhecimento de Deus e o conhecimento de nós mesmos. Mas, embora estes dois ramos da sabedoria estejam estritamente ligados entre si, não é fácil ver qual é o que precede e qual é o que procede.

Ninguém pode seriamente considerar-se a si mesmo sem descobrir que esta consideração volve seus pensamentos em direção àquele Deus em quem vive e se movimenta; é óbvio pois, que os poderes que possuímos não são derivados de nós mesmos, e que nossa própria existência é uma existência no único Deus verdadeiro. Através das bênçãos que gotejam sobre nós do céu somos guiados à fonte delas; e nossa própria pobreza torna manifesta a riqueza ilimitada de Deus. Acima de tudo a ruína em que a queda nos afundou nos conclama a olhar para cima, de modo que possamos receber provisões para nossa fome e aprender humildade mediante o temor de Deus. A consciência da nossa própria ignorância, vaidade, pobreza, fraqueza e corrupção ensina-nos que a verdadeira sabedoria, poder, riqueza e justiça somente podem ser achados no Senhor; nem sequer podemos seriamente aspirar ao conhecimento dEle, até que comecemos a ficar descontentes conosco mesmos.

Por outro lado, está certo que ninguém adquire qualquer conhecimento certo de si mesmo até ser trazido face a face com Deus. Tal, pois, é nosso orgulho natural que sempre consideramos retos, sábios e santos, até que sejamos convictos do contrário por provas claras; e não ficamos convictos desta maneira antes de olharmos para o Senhor, cuja perfeição é o único padrão pelo qual este assunto deve ser testado. Todos nós temos uma tendência natural à hipocrisia; e, portanto, ficamos bem satisfeitos com uma demonstração de justiça falsa ao invés da justiça verdadeira. Tudo ao nosso redor está contaminado; conseqüentemente aquelas coisas que estão um pouco menos contaminadas do que outras nos agradam como se fossem a própria pureza. Portanto, um olho que ficou fixo numa parede preta confundirá um marrom claro com o branco; e a vista que é nítida e forte para as coisas da terra vê-se ofuscada quando
se volta para o sol. Até que olhemos mais alto do que a terra, parecemos semi-deuses para nós mesmos; quando, porém, aprendemos a considerar as perfeições de Deus, nossa justiça é vista como iniqüidade, nossa sabedoria com estultícia, e nossa força como fraqueza.

Surge daí aquele temor e espanto que tem caído sobre os santos cada vez que tiveram consciência da presença de Deus. Freqüentemente clamavam: “Morremos, porque vimos o Senhor” (Jz 13.22; Is 6.5; Ez 1.28; 3.14; Dn 8.18; 10.16-17). Disto infere-se que o homem nunca é corretamente atingido com um senso da sua própria nulidade até que se tenha examinado perante a majestade de Deus. As experiências de Jô, Abraão, Elias e Isaías, todas elas confirmam esta verdade. E o que pode fazer o homem, ele que não passa de ser corrupção e verme, quando os próprios querubins cobrem o rosto em reverente temor?

Não obstante, o conhecimento de Deus e o conhecimento de nós mesmos estejam intimamente ligados, o método correto de ensino requer que falemos primeiramente do conhecimento de Deus, e depois, do de nós mesmos.

O QUE SIGNIFICA CONHECER A DEUS

Por “conhecimento de Deus” quero dizer não o mero conhecimento do fato de que Deus existe, e sim um conhecimento dEle tal que seja para o nosso bem e para a glória dEle; não podemos, pois, dizer corretamente que Deus é conhecido por aqueles que não têm piedade. E a esta altura ainda não menciono o conhecimento que o pecador tem do seu Redentor, porém o conhecimento tal que naturalmente teríamos se Adão não tivesse caído. Pois uma coisa é conhecer a Deus como nosso Criador, sustentando-nos pelo Seu poder, governando-nos pela Sua providência, e cumulando-nos com benefícios, mas coisa bem diferente é abraçar a reconciliação que é colocada diante de nós em Cristo.

Verdadeiramente conhecemos nosso Criador quando não somente reconhecemos que Ele criou as coisas pelo Seu poder, que sustenta-as pelo mesmo poder, que governa a raça humana com sabedoria, justiça e cuidado amoroso, mas também percebemos que não temos uma gora sequer de sabedoria, justiça, poder ou verdade senão aquilo que flui dEle, e assim aprendemos a depender dEle por todas estas coisas e a reconhece-las com gratidão como dádivas dEle.

Nada menos é que vã especulação perguntar o que é Deus. É do nosso interesse ficar sabendo do Seu caráter e daqueles atributos dEle que nos importa conhecer. O que, pois, é a utilidade de reconhecer, conforme Epicuro reconhecia, que existe um Deus, mas que Deus vive despreocupado e deixa o mundo cuidar de si mesmo? Um conhecimento correto dEle é o que nos leva a reverenciá-lO e buscar toda coisa boa da Sua poderosa mão. Como, pois, podes tu ter em mente qualquer pensamento acerca de Deus, sem ao mesmo tempo ter a consciência de que tu, sendo a obra das Suas mãos, é pela própria lei da criação sujeito ao Seu domínio, que tua vida a Ele pertence, e que todas as tuas ações devem ser guiadas pela vontade dEle?

Sendo este o caso, segue-se imediatamente que tua vida é corrompida e depravada, a não ser que seja moldada segundo o Seu beneplácito. O homem bom não é refreado do pecado pelo mero temor do castigo, mas sim por um amor reverente a Deus como seu Pai, a quem teme ofender.

Esta é a religião pura e genuína; e devemos lembrar com cuidado, que, embora todos os homens prestem a Deus algum tipo de culto, muito poucos O reverenciam; há de todos os lados uma grande demonstração de observâncias cerimoniais, mas a sinceridade de coração é rara.

Carta de João Calvino a Martinho Lutero

Posted by Josemar Bessa on Domingo, Julho 16, 2006 , under | comentários (0)



Quando falamos ou pensamos na Reforma, é impossível deixarmos de pensar em Lutero e Calvino. Apesar de todos os demais grandes homens de Deus envolvidos e comprometidos com a teologia reformada ao longo dos séculos, é inegável o fato de que Deus utilizou, de forma sobremaneira especial, esses dois gigantes, ainda que de formas distintas, mas sobretudo, complementares.

Mas ao longo da história da igreja e da teologia, surgem esporadicamente, defensores do Calvinismo - termo que o próprio Calvino jamais aprovaria, embora muitas vezes necessário – que expressam, ainda que veladamente, certo desprezo pelo “rotundo e menos culto Lutero”.

De mesma maneira, alguns desatentos defensores das idéias de Lutero (como se essas idéias fossem radicalmente contrárias às de Calvino), atribuem a Calvino, de forma imprópria, um radicalismo teológico em questões que o próprio Lutero foi mais enfático.

Temos ainda, dentro do evangelicalismo, uma grande maioria defensora convicta da Reforma, mas completamente alheia à teologia dos reformadores. E é nesse terceiro grupo que impera a mais absurda de todas as associações: Lutero é o herói que rompeu com o romanismo e aboliu os santos, e Calvino e o vilão que introduziu o conceito de “predestinação”.

Sabemos que a realidade é bem diferente. Lutero foi muito enfático quando escreveu a “Escravidão da Vontade” ou “Livre-arbítrio, Um Escravo”, em nada divergido de Calvino em todas as questões decorrentes da doutrina da Graça. Mas isso é uma longa história e não caberia nesse momento.

A intenção é apenas destacar a incoerência na esporádica e infundada oposição entre alguns “de Calvino” e alguns “de Lutero”, pois essa oposição jamais existiu entre aqueles dois homens de Deus. E para registro disto, postamos abaixo a carta de Calvino a Lutero, que reputo como um dos grandes documentos ou registros da história da fé cristã.

Confesso que chorei no momento em que li pela primeira vez esta carta, e ainda me emociono quando a releio, pois quando se fala em uma carta entre Calvino e Lutero, a primeira imagem que nos ocorre é um documento de um erudito a outro erudito, intencionalmente ininteligível a qualquer leigo, composta por esnobes termos rebuscados, pontilhada por expressões em latim, ainda que de sentido corrente na língua vernácula, mas salpicadas para subentender a erudição e títulos (Ma, PhD, LLM, etc) e com a natural formalidade entre duas autoridades acadêmico/teológica, que precisam manter o status dessa autoridade. (É natural, entretanto, que todo o conteúdo da carta fosse em latim, por ser esta uma língua de pleno domínio e comum aos dois teólogos, mas não como ostentação).

Mas ao contrário de tudo isso, e apesar de detentores desses títulos, que embora importantes na formação dos dois reformadores, eram vistos por eles mesmos como algo absolutamente instrumental e secundário diante do maior de todos os privilégios que é ser um servo de Deus. E é esse o clima predominante da carta: profundo respeito, uma pungente demonstração de afeto e registro histórico de uma forte ligação gerada pela comunhão de dois verdadeiros servos de Deus, onde o mais jovem declara a sua gratidão e seu carinho utilizando de um termo que demonstra o grau e a profundidade do conjunto desses sentimentos, como podemos ver no início "Meu tão respeitado pai", e no final, "meu sempre honrado pai". Raras são essas explícitas demosntrações e reconhecimentos na Igreja atual. Mas acho que a carta fala por si mesma:


Carta de João Calvino a Lutero

21 de Janeiro de 1545

Ao mui excelente pastor da Igreja Cristã, Dr. M. Lutero, [1] meu tão respeitado pai. Quando disse que meus compatriotas franceses, [2] que muitos deles foram tirados da obscuridade do Papado para a autêntica fé, nada alteraram da sua pública profissão, [3] e que eles continuam a corromper-se com a sacrílega adoração dos Papistas, como se eles nunca tivessem experimentado o sabor da verdadeira doutrina, fui totalmente incapaz de conter-me de reprovar tão grande preguiça e negligência, no modo que pensei que ela merece. O que de fato está fazendo esta fé que mente sepultando no coração, senão romper com a confissão de fé? Que espécie de religião pode ser esta, que mente submergindo sob semelhante idolatria? Não me comprometo, todavia, de tratar o argumento aqui, pois já o tenho feito de modo mais extenso em dois pequenos tratados, em que, se não te for incomodo olha-los, perceberá o que penso com maior clareza que em ambos, e através da sua leitura encontrará as razões pelas quais tenho me forçado a formar tais opiniões; de fato, muitos de nosso povo, até aqui estavam em profundo sono numa falsa segurança, mas foram despertados, começando a considerar o que eles deveriam fazer. Mas, por isso que é difícil ignorar toda a consideração que eles têm por mim, para expor as suas vidas ao perigo, ou suscitar o desprazer da humanidade para encontrar a ira do mundo, ou abandonando as suas expectativas do lar em sua terra natal, ao entrar numa vida de exílio voluntário, eles são impedidos ou expulsos pelas dificuldades duma residência forçada. Eles têm outros motivos, entretanto, é algo razoável, pelo que se pode perceber que somente buscam encontrar algum tipo de justificativa. Nestas circunstâncias, eles se apegam na incerteza; por isso, eles estão desejosos em ouvir a sua opinião, a qual eles merecem defender com reverência, assim, ela servirá grandemente para confirmar-lhes. Eles têm me requisitado de enviar um mensageiro confiável até você, que pudesse registrar a sua resposta para nós sobre esta questão. Pois, penso que foi de grande conseqüência para eles ter o benefício de sua autoridade, para que não continuem vacilando; e eu mesmo estou convicto desta necessidade, estive relutante de recusar o que eles solicitaram. Agora, entretanto, mui respeitado pai, no Senhor, eu suplico a ti, por Cristo, que você não despreze receber a preocupação para sua causa e minha; primeiro, que você pudesse ler atentamente a epistola escrita em seu nome, e meus pequenos livros, calmamente e nas horas livres, ou que pudesse solicitar a alguém que se ocupasse em ler, e repassasse a substância deles a você. Por último, que você escrevesse e nos enviasse de volta a sua opinião em poucas palavras. De fato, estive indisposto em incomodar você em meio de tantos fardos e vários empreendimentos; mas tal é o seu senso de justiça, que você não poderia supor que eu faria isto a menos que compelido pela necessidade do caso; entretanto, confio que você me perdoará. Quão bom seria se eu pudesse voar até você, pudera eu em poucas horas desfrutar da alegria da sua companhia; pois, preferiria, e isto seria muito melhor, conversar pessoalmente com você não somente nesta questão, mas também sobre outras; mas, vejo que isto não é possível nesta terra, mas espero que em breve venha a ser no reino de Deus. Adeus, mui renomado senhor, mui distinto ministro de Cristo, e meu sempre honrado pai. O Senhor te governe até o fim, pelo seu próprio Espírito, que você possa perseverar continuamente até o fim, para o benefício e bem comum de sua própria Igreja.

Extraído de Letters of John Calvin: Select from the Bonnet Edition with an introductory biographical sketch (Edinburgh, The Banner of Truth Trust, 1980), pp. 71-73.

[1] - Nota do tradutor: O especial interesse por esta carta, pelo que sabemos, é que ela é a única que Calvino escreveu a Lutero.

[2] - Nota do tradutor: Pelo que parece Calvino se refere aos huguenotes que embora haviam assumido o compromisso com uma confissão de fé reformada, mas na prática ainda preservavam os ídolos, toda a pompa e ritual da missa católica romana. Esta prática evidenciava uma incoerência entre o ato e a convicção de fé.

[3] - Nota do tradutor: Calvino se refere ao culto como uma confissão pública de fé.

Romanos - João Calvino.

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"A Escritura é a escola do Espírito Santo, na qual nada se omitiu que não fosse necessário e útil de se conhecer; tampouco nada se ensina senão o que convenha saber". (J. Calvino, As Institutas, III.31.3).



Em 1539, Calvino, o jovem de 30 anos, podia finalmente tornar a fazer o que julgava deterninado à sua vida: o estudo, a reflexão e a pregãção. Depois de uma rápida e turbulenta passagem por Genebra (1536 - 1538), agora está em Estrasburgo,[Calvino seria persuadido pelos genebrinos, e outros amigos, a voltar a Genebra, o que fez em 13/09/1541, implantando, a partir de então, uma intensa reforma naquela cidade. Ali permaneceria até o fim de sua vida (17/5/1564)]- disposto a recomeçar sua vida pastoral e de estudo, tendo, então, como marco dessa nova fase a redação de seu comentário do livro de Paulo aos Romanos (1539)- [Publicado em março de 1540. Outras edições foram publicadas em 1551 e 1556. É provável que esse trabalho seja o resumo de suas aulas ministradas em Genebra, no período de (1536 - 1538)]. Esse foi seu primeiro comentário de um livro da Bíblia. A partir de Romanos, ele comentará quase todos os livros da Bíblia; e, no púlpito, fará também exposição da maior parte dos livros das EScrituras, tornando-se um dos maiores e mais importantes exegetas de todos ostempos, sendo, não sem razão, alcunhado de "O Exageta da Reforma".



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"Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado para ser Apóstolo, separado para o evangelho de Deus" (Rm 1.1)

1. Paulo. A questão do nome - Paulo - não é de tanta importância que demande demasiado tempo gasto em discuti-la. Não se pode acrescentar nada à discussão que não haja sido freqüentemente reiterado por outros intérpretes. Eu evitaria fazer qualquer referência a ela, se não fosse o fato de ser possível dizer algo àqueles que porventura apresentem algum interese sem serem excessivamente tediosos, visto que minhas observações sobre o tema serão breves.

A teoria de que o ápóstolo assumira esse nome como lembraça de seu sucesso na conversão do procônsul Sérgio é desmentida pelo próprio Lucas (At 13.7,9), o que deixa claro que Paulo tinha esse nome antes mesmo desse tempo. Não creio, tampouco, ser provável que esse nome fosse dado a Paulo por ocasião de sua própria conversão. Agostinho, creio eu, deu seu endosso a este hipótese simplesmente porque ela lhe propiciara a oportunidade de apresentar algum argumento sutil em sua discussão sobre o Saulo auto-suficiente, o qual se converteu em um mui pequeno (parvulum)
[Nota - Expressando assim o significado de Paulus, que em latim é pequeno. "Paulo", diz o notório Elnathan Parr, "significa pequeno, e deveras não impropriamente, porque lemos que ele era de estatura baixa e de ter uma voz bem deficitária, levando muitos a pensar que essa foi a objeção contra ele em 2Co 10.10"]discípulo de Cristo. Orígenes, entretanto, é mais coerente em sua conclusão, dizendo que Paulo era portador de dois nomes. É bem mais provável que haja sucedido que o nome familiar, Saulo, lhe fora dado por seus pais como indicativo de sua religião e raça; enquanto que o sobrenome, Paulo, lhe fora adicinado como evidência de seu direito de cidadania romana [ Nota - A maioria dos escritores concoda com este ponto de vista, considerando Saulo como seu nome hebreu, e Paulo como sendo seu nome romano]. Esta constituía uma grande honra que era de muita importância nos dias de Paulo, aqual seus pais não queriam ocultar, embora não lhe dessem tanto valor que deixassem que a mesma obscurecesse a evidência de sua origem israelita. Entretanto, este foi o nome que Paulo geralmente usou nas Epístolas, talvez porque era um nome bem mais notório e mais comum nas igrejas às quais escrevia, bem como mais aceitável no Império Romano e menos notório no seio de seu próprio povo (judeu). Paulo, naturalmente, procurou evitar as suspeitas desnecessárias e o violento desprazer ocasionado pelos nomes judaicos em Roma e suas províncias, evitando igualmente excetar as paixões de seus compatriotas, bem como tomar precaução em prl de sua segurança pessoal.

Servo de Jesus Cristo - Estas são distinções pelas quais Paulo designa a si próprio com o fim de assegurar autoridade para seu ensino. Ele faz isso de duas formas, a saber: primeiro, ratificando sua vocação para o apostolado;[Nota - "Um apóstolo chamado - vocatus apostolus: Nossa versão traz "chamado para ser apóstolo". A maioria considera 'chamado' aqui no sentido de escolhido ao eleito, "um apóstolo escolhido". O professor Stuart observa que essa palavra nos escritos de Paulo, tem sempre o sentido de vocação eficiente, e significa não só o convocado, mas o eficazmente convocado. Ele cita 1Co 1.1,2; 24; Rm 1.6,7;8.28; compardos a Gl 1.15; Jud 1; Hb 3.1; Rm 11.29; Ef 4.1.
Ele era apóstolo por vocação, ou como traduz Beza, "pela vocação de Deus - ex Dei vocatione apostolus". O significado é o mesmo expresso por ele próprio em Gl 1.1. Turrettin traduz: "Um apóstolo chamado" e "chamado para ser apóstolo" é esta: a primeira expressão comunica a idéia de que ele obedeceu a vocação; e a autra não] e, segundo,anunciando a seus leitores que esta vocação tinha algo a ver com a Igreja de Roma. Tal fato, para Paulo, era de grande importância, não só que seria considerado como apóstolo pelo chamado de Deus, mas também que seria conhecido como aquele que fora destinado à Igreja de Roma. Ele, pois, declara ser servo de Cristo e chamado para o ofício de apóstolo, querendo significar que sua conversão em apóstolo não era uma intrusão casual. Ele, pois, acrescenta imediatamente a seguir que fora separado [ selectum - selecionado - separado, posto a parte; 'segregatus', Vulgata; 'separatus', Beza. "Os fariseus eram intitulados (separatistas). Separavam-se para o estudo da lei; neste sentido podensos ser chamado com a mesma expressãp - separado para a lei - no original. Em ilusão a isso, diz Drusius, foi assim que o apóstolo se intitulou em Romanos 1.1 - separado para o evangelho, quando fui chamado dentre os fariseus para ser um pregador do evangelho. "Separado é o termo aditado tanto por Doddridge quanto por Macknight, e bem assim por nossa versão], fortalecendo, assim, sua insistência em dizer que era um dentre muitos, mas que era um apóstolo do Senhor, particularmente eleito. Nesse sentido, ele está também transitando seu argumento do geral para o particular, visto que o apostolado é um gênero particular de ministério. todos quantos exercem o ofício do magistério são considerados pertencentes ao número de servos de Cristo; os apóstolos, porém, têm uma distinção única que os caracteriza enter todos os demais. Portanto, a separação de Paulo(mencionada mais adiante) expressa tanto o objetivo quanto a ação de seu apostolado, pois sua intenção era fazer uma breve referência ao propósito de sua eleição para este ofício. Servo de Cristo, portanto, que ele aplica a si próprio, é um título que compartilhava como todos os demais mestres. Ao reivindicar o título de apóstolo, contudo, ele atribuiu a si próprio certa prioridade. Visto, porém, que aquele que usurpa o ofício apostólico não pode atribuir a si autoridade alguma, Paulo lembra a seus leitores que ele fora designado por Deus pessoalmente.

Assim, o significado da passagem consiste em que Paulo não era servo de Cristo no sentido ordinário, mas apóstolo, designado pelo chamamento divino, e não por quaisquer pretensiosos esforços oriundos dele próprio. Nesse respeito, vem em seguida uma explanação mais clara de seu ofício apostólico, já que sua comissão era pregar o evangelho. Não concordo com aqueles que se reportam a esta vocação, a qual Paulo ora descreve como sendo a eterna eleição divina, e interpretam a separação no sentido ou de sua separação desde o ventre materno (como mencionado em Gl 1.15), ou de sua escolha (referida por Lucas) para pregar aos gentios. A glória de Paulo consiste simplesmente em ser Deus o autor de sua vocação. Não podia haver qualquer suspeita de que ele estivesse apropriando-se indeviamente desta honra com base em sua pretensão pessoal [Nota - Há quem combine as quatro separações. "Posto à parte no eterno conselho de Deus e desde o ventre de sua mãe (Gl 1.15) e, pelo especial mendamento do Espírito Santo (At 13.2), confirmado pela constituição da Igreja (At 13.3; Gl 2.9)" Parr. Mas o objeto aqui parece ter sido aquele declarado por Calvino: não é justo nem prudente conectar qualquer idéia com a palavra, exceto aquela que o contexto requer; pois agir ao contrário só serve pra criar confusão ].

Deve-se notar aque que nem todos estão qualificados para o ministério da Palavra. Este requer uma vocação especial. Aqueles que acreditam que estão bem qualificados devem revestir-se de especial cuidado para não assumirem o ofício sem a vocação. Discutiremos em outra parte o caráter da vocação de apóstolo e bispos; o ponto, porém, a ser observado é que a função de um apóstolo consista na pregação do evangelho. Este mesmo fato prova o absurdo daqueles cães raivosos cuja mitra, bastão e pretensões similares são únicas marcas distintivas, mas cuja vanglória consiste em dizer qeu são os sucessores dos apóstolos.

O termo servo nada mais, nada menos, significa ministro, pois ele indica aquolo que é de caráter oficial. [ Nota - Moisés, Josué, Davi, Neemias e outros, foram, num sentido semelhante, chamados servos; e assim também nosso Senhor. Foram oficialmente servos.]. Menciono isso a fim de invalidar a impessão equivocada daqueles que se comprazem em filosofar sobre o termo, com base na pretensão de haver um contraste entre o minsitério de Moisés e o de Cristo.

Bem-Aventurado Aquele Cuja Trangressão é Perdoada

Posted by Josemar Bessa on Quinta-feira, Junho 15, 2006 , under | comentários (0)



João Calvino (1509-1564)
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Um comentário do Salmo 32:1-2
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"BEM-AVENTURADO aquele cuja transgressão é perdoada, e cujo pecado é coberto.Bem-aventurado o homem a quem o SENHOR não imputa maldade, e em cujo espírito não há engano." (Sl. 32:1-2)
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Bem-aventurado aquele cuja transgressão é perdoada. Esta exclamação brota do fervente amor existente no coração do salmista, bem como de uma séria consideração. A quase totalidade do mundo, afastando seus pensamentos do julgamento de DEUS, trouxe sobre si um descuido fatal e se intoxicou com prazeres ilusórios. Davi porém, como se tivesse sido assaltado pelo temor da ira de DEUS, de forma tal, que precisasse ser conduzido à misericórdia de DEUS, estimula outros a mesma prática, declarando, claramente e em alta voz, que aqueles que estão reconciliados com DEUS, são abençoados de maneira que, apesar de merecerem ser tratados como Seus inimigos, são considerados Seus filhos.
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Alguns estão tão cegos pelo orgulho e hipocrisia, e outros por um desprezo tal por DEUS, que não estão nem um pouco preocupados em buscar perdão, mas todos reconhecem que precisam dele, até porque não existe um só homem cuja consciência não o acuse em relação ao julgamento de DEUS e o atormente com muitas censuras. Por conseguinte, a confissão de que todos necessitam de perdão, porque não há homem perfeito e somente quando DEUS nos perdoa é que estamos bem, é extorquida da natureza humana, mesmo daqueles homens maus. Mas, a hipocrisia fecha os olhos de multidões, enquanto outros estão tão iludidos por uma perversa segurança carnal, que também não são alcançados pelo sentimento da ira divina, ou tem somente uma apática sensação dela. Disto procede um duplo erro: primeiro, que tais homens, se transformassem seus pecados em luz, não refletiriam nem a centésima parte do perigo que correm em relação a indignação de DEUS; segundo, inventam expiações frívolas objetivando libertá-los da culpa e barganhar o favor de DEUS.
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Assim, em todas as épocas, esta tem sido a idéia predominante, que, apesar de todos os homens estarem infectados pelo pecado, estão, ao mesmo tempo, adornados com méritos que são calculados com o fim de obter o favor de DEUS, e que, apesar de O provocarem com seus crimes, eles tem expiações e argumentos preparados para obter sua absolvição. Esta ilusão de Satanás é igualmente comum entre os papistas, turcos, judeus e outras nações. Todo homem, portanto, admite a verdade da declaração de que os homens estão em um estado miserável a menos que DEUS trate misericordiosamente com eles, não lhes imputando os seus pecados. Mas Davi vai mais longe, declarando que toda a vida do homem está sujeita a ira e maldição de DEUS, exceto quando Ele concede da Sua livre graça para recebê-los no Seu favor.
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Sobre isso o Espírito, que falou por Davi, é um intérprete incontestável e testemunha para nós através da boca de Paulo, "Assim também Davi declara bem-aventurado o homem a quem Deus imputa a justiça sem as obras, dizendo: Bem-aventurados aqueles cujas maldades são perdoadas, e cujos pecados são cobertos." (RM 4:6-7).Se Paulo não tivesse usado esse testemunho, seus leitores nunca teriam penetrado no real significado daquilo que foi dito pelo profeta, pois constatamos que os papistas, apesar de cantarem em seus templos: "Abençoados são aqueles cujas iniqüidades são perdoadas", etc, passam sobre isso como se fosse um ditado comum, de pouca importância. Mas com Paulo, esta é a definição completa da justiça da fé; como se o profeta tivesse dito que os homens somente são bem-aventurados quando são reconciliados com DEUS e contados como justos por Ele.
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A bem-aventurança que Davi celebra, destroi a justiça das obras. A invenção de uma justiça parcial com a qual os papistas e outros se iludem, é mera tolice e mesmo entre aqueles que são destituídos da luz da doutrina celeste, ninguém será tão louco de imputar, a si mesmo, uma justiça perfeita, como parece ser o caso nas expiações, lavagens e outros meios de apaziguar DEUS, o que sempre esteve em voga entre as nações. Mas, apesar disto, não hesitam em impor suas virtudes sobre DEUS, como se, por elas, eles adquiririam, por si próprios, uma grande parte da sua bem-aventurança.
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Davi, entretanto, prescreve uma diferente ordem na busca da felicidade, tudo deve começar com o princípio de que DEUS não pode se reconciliar com aqueles que são dignos da destruição eterna, por qualquer outro meio que não seja perdoando-os graciosamente e concedendo-lhes Seu favor. E ele declara, de forma devida, que se a misericórdia é restringida, todo homem deve ser totalmente desprezível e condenável, pois se todos os homens são naturalmente inclinados somente para o mal, até que sejam regenerados, toda sua vida prévia, é óbvio, deve ser repulsiva e repugnante à vista de DEUS. Além disso, como mesmo depois da regeneração, nenhuma obra que o homem possa realizar pode agradar DEUS, a menos que Ele perdoe o pecado que se associa a ela, eles devem eliminar a esperança da salvação. Certamente nada irá permanecer para eles, a não ser razão para um terror maior.
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Que as obras dos santos são indignas de recompensa porque elas são manchadas, parece um duro discurso aos papistas. Mas, nisto eles denunciam sua ignorância grosseira, estimando, de acordo com suas próprias concepções, o julgamento de DEUS, em cujos olhos o próprio brilho das estrelas nada mais é do que trevas. Portanto, esta é uma doutrina estabelecida: que somos considerados justos diante de DEUS pela remissão gratuita de pecados. Este é o portão para a salvação eterna e, por conseguinte, só aqueles que confiam na misericórdia de DEUS, são bem-aventurados. Devemos ter em mente o contraste que já mencionei, entre crentes que, abraçando a remissão de pecados, confiam somente na graça de DEUS, e todos os outros que não se colocam no santuário da divina graça.
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Além disso, quando Davi repete três vezes a mesma coisa, não o faz por vã repetição. De fato, é suficientemente evidente que bem-aventurados são aqueles cuja iniquidade é perdoada; mas a experiência nos ensina quão difícil é ser persuadido disto, de maneira a ter isto perfeitamente estabelecido em nossos corações. A grande maioria, como já mostrei anteriormente, enredada por seus próprios raciocínios, afasta dela, o mais longe possível, o terror da consciência e todo o medo da ira divina. Eles tem, sem dúvida, um desejo de ser reconciliados com DEUS e, contudo, evitam a visão dEle, ao invés de buscar Sua graça sinceramente e com todo o seu coração. Aqueles, por outro lado, a quem DEUS verdadeiramente despertou de forma a ser afetado com o senso vívido de suas misérias, são tão constantemente agitados e inquietados, que é difícil restaurar paz as suas mentes. Eles experimentaram a misericórdia de DEUS e esforçam-se em lançar mão dela, e, contudo, são freqüentemente confundidos ou vacilam sob os múltiplos assaltos que vem sobre eles.
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As duas razões pela qual o salmista insiste tanto no assunto do perdão de pecados é que ele pode, por um lado, erguer aqueles que dormem, influenciar os descuidados e avivar os desanimados, e que pode, por outro lado, tranqüilizar mentes aflitas e apreensivas com uma confissão segura e firme. Para a primeira razão, a doutrina pode ser aplicada da seguinte maneira: "O que você quer dizer, ó homem infeliz?! que uma ou duas alfinetadas da consciência não o perturbam? Suponha que um certo conhecimento limitado dos seus pecados não é suficiente para prostrá-lo com terror; todavia, quão despropositado é continuar a dormir confiadamente, enquanto você está encoberto por um imenso peso de pecado?".
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Para a Segunda razão, esta repetição fornece não um pequeno conforto e confirmação aos débeis e fracos. A medida que as dúvidas estão freqüentemente surgindo sobre eles, uma após outra, não é suficiente que sejam vitoriosos em um conflito somente. Este desespero, portanto, não os pode dominar; em meio aos vários pensamentos com os quais são inquietados, o Espírito Santo confirma e ratifica a remissão dos pecados com muitas declarações.
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Agora é apropriado pesar a força particular da expressão empregada aqui. Certamente a remissão que estamos tratando não harmoniza-se com justificativa. DEUS, a medida que leva embora os pecados, os cobre e não os imputa, está perdoando-os graciosamente. Sobre isto os papistas, confiando em suas justificativas e obras privam-se desta bênção. Além disso, Davi aplica estas palavras ao perdão completo. A distinção, portanto, que os papistas fazem aqui entre a remissão da punição e da falta, pela qual eles inferem somente meio perdão, não é, definitivamente, o propósito. É necessário considerar a quem esta alegria pertence, o que pode ser facilmente deduzido da circunstância de tempo. Quando Davi foi ensinado, que era bem-aventurado através da misericórdia de DEUS somente, ele não era estranho à igreja de DEUS; ao contrário, ele se destacava sobre muitos no que dizia respeito ao temor e culto a DEUS, na santidade de vida e tinha se exercitado nos deveres de piedade. E mesmo depois de ter feito estes avanços na religião, DEUS trabalhou com ele de tal maneira, que ele colocou o alfa e o ômega da sua salvação em sua gratuita reconciliação com DEUS.
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Nem foi sem razão que Zacarias, na sua canção, representa "o conhecimento da salvação" como consistindo em conhecer "a remissão de pecados"(Lc. 1:77). Quanto mais alguém se excede na santidade, mais ele sente que está muito longe da justiça perfeita e mais claramente percebe que não pode confiar em nada além da misericórdia de DEUS. Por isso, aqueles que pensam que o perdão dos pecados é necessário somente no início da justificação, estão enganados. Desde que os crentes estão envolvidos em muitas faltas todos os dias, de nada irá lhes adiantar o fato de já terem entrado no caminho da justiça, a menos que a mesma graça que os trouxe para ele, os acompanhe até o último passo da sua vida.
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Alguém faz objeção, que em outra parte das Escrituras são chamados de bem-aventurados aqueles "que temem ao Senhor", "que andam nos Seus caminhos", "que são justos em seus corações", etc? A resposta é fácil, a saber, assim como o perfeito temor ao Senhor, a perfeita observância da lei e a perfeita justiça de coração, não pode ser encontrada em ninguém, tudo que a Escritura diz sobre bem-aventurança, é fundamentada no favor gratuito de DEUS, pelo qual nos reconcilia com Ele. Em cujo espírito não há engano. Nesta oração, o salmista distingue os crentes dos hipócritas e daqueles que desprezam a DEUS, nenhum dos quais se preocupa com essa felicidade, nem podem alcançar o seu gozo. Na verdade, os maus são conscientes de sua culpa, mas ainda assim, sentem prazer na sua maldade; endurecem-se na sua impudência e riem das advertências; ou se satisfazem com lisonjas enganosas, que os livra do constrangimento diante da presença de DEUS.
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Embora se sintam infelizes pelo senso de sua miséria e incomodados com tormentos secretos, eles, ainda assim, com um esquecimento perverso, sufocam todo o temor de DEUS. Como hipócritas, se suas consciências, em qualquer tempo, os incomoda, eles aliviam sua dor com remédios ineficazes, de modo que se DEUS, em qualquer tempo, os convoca ao Seu tribunal, não sei que fantasmas eles apresentam para sua defesa. E sempre estão com cobertas capazes de manter fora de seus corações a luz. Estas duas classes de homens são impedidas de buscar a felicidade no amor paternal de DEUS, por causa da sua culpa interna. Não somente isso, mais muitos deles apressam-se, intencionalmente, para a presença de DEUS, ou superestimam-se com uma presunção orgulhosa, sonhando que são felizes, apesar de DEUS estar contra eles.
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Davi, portanto, quer dizer que ninguém pode provar o que é perdão de pecados até que seu coração seja, primeiramente, limpo do engano. O que ele quer dizer, então, com o termo engano, pode ser entendido do que eu disse anteriormente. Quem quer que não examine a si mesmo como se na presença de DEUS, mas, ao contrário, evitando Seu julgamento, se cobre em trevas, ou se cobre com folhas, lida enganosamente consigo e com DEUS. Não é de se estranhar, portanto, que aquele que não sente sua doença, recuse o remédio.
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Os dois tipos de engano que mencionei devem ser particularmente considerados. Poucos podem ser tão endurecidos que não possam ser tocados com o temor de DEUS e com algum desejo de Sua graça, e, ainda assim, serem movidos friamente a buscar perdão. Por esta razão o que acontece é que eles não percebem quão inexprimível alegria é obter o favor de DEUS. Tal foi o caso de Davi, por um tempo, quando uma segurança traiçoeira o encobriu, obscurecendo sua mente e impedindo que se aplicasse zelosamente a perseguir sua felicidade. Freqüentemente os santos caem no mesmo problema. Se, portanto, quisermos experimentar a alegria que Davi propõe aqui para nós, devemos tomar o maior cuidado para que Satanás, enchendo nossos corações de engano, prive-nos de todo senso da nossa miséria.

Abraão, Justificado pela Fé

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“Porque, se Abraão foi justificado por obras, tem de que se gloriar, mas não em relação a Deus. Pois, que diz a Escritura? Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado por justiça” (Romanos 4:2,3).
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2.
Pois se Abraão foi justificado por obras. O argumento é incompleto e precisa ser posto na seguinte forma: “Se Abraão foi justificado por obras, então ele pode vangloriar-se em seu próprio mérito, porém não tem razão alguma de vangloriar-se na presença de Deus. Portanto, ele não é justificado por obras”. Assim, a cláusula porém não em relação a Deus constitui a proposição menor do silogismo, e a esta deve acrescentar-se a conclusão que já expus, ainda que a mesma não esteja expressa por Paulo. Ele dá o título de "gloriar-se" quando pretendemos ter algo propriamente nosso que no juízo de Deus mereça recompensa. Quem dentre nós reivindicará para si a mínima partícula de mérito, quando o mesmo foi negado a Abraão?
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3. Pois, que diz a Escritura? Esta é a prova de sua proposição ou hipótese menor, na qual ele negou possuísse Abraão alguma base para gloriar-se. Se Abraão foi justificado em razão de haver abraçado a munificência divina, mediante a fé, segue-se que ele não tem por que gloriar-se, visto que não traz nada propriamente seu exceto o reconhecimento de sua própria miséria que clama por misericórdia. O apóstolo está pressupondo que a justiça procedente da fé é o referencial de obras. Se houvesse alguma justiça procedente da lei ou das obras, então ela residiria no próprio homem. Todavia, este busca na fé o que não encontra em nenhum outro lugar. Por esta razão é que corretamente se intitula: justiça imputada pela fé.
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A passagem citada é extraída de Gênesis 15:6, na qual o verbo crer não deve ser restringido por alguma expressão particular, mas refere-se ao pacto da salvação e à graça da adoção como um todo, os quais diz-se ter Abraão apreendido pela fé. Há mencionada ali, é verdade, a promessa de uma progênie futura, porém a mesma teve por base a adoção gratuita. Deve-se notar, contudo, que a salvação não é prometida independentemente da graça de Deus, nem a graça de Deus, independentemente da salvação. Igualmente, não somos chamados à graça de Deus, ou à esperança da salvação, sem que a justiça não seja ao mesmo tempo oferecida. Se assumirmos esta postura, torna-se evidente que aqueles que pensam estar Paulo arrancando a declaração mosaica de seu contexto, não entendem os princípios da teologia. Visto haver uma promessa específica afirmada na passagem, então entendem que Abraão agiu correta e honradamente, ao crer nela, e que por isso recebeu a aprovação divina. Sua interpretação, porém, é equivocada, aqui; primeiro, porque não percebem que crer se estende a todo o contexto, e não deve, portanto, restringir-se a uma cláusula. O principal equívoco, contudo, esta em sua falha em começar com o que se acha asseverado sobre a graça de Deus. Este conferiu a Abraão sua graça com o fim de fazê-lo ainda mais convicto da adoção divina e do favor paternal de Deus, nos quais se acha inclusa a salvação eterna através de Cristo. Por esta razão Abraão, ao crer, abraçou nada mais nada menos que a graça a ele oferecida, para que o seu crer não fosse destituído de efeito. Se isto lhe foi imputado para justiça, segue-se que a única base de sua justiça consistia em sua confiança na munificência divina e em sua ousadia em esperar todas as coisas como provindas de Deus. Moisés não relata o que os homens pensavam de Abraão, mas, sim, o caráter que ele possuía diante do tribunal divino. Abraão, pois, apoderou-se da bondade divina que lhe era oferecida na promessa, e por meio da qual percebeu que a justiça lhe estava sendo comunicada. A fim de determinar o significado de justiça, é indispensável que se entenda esta relação entre promessa e fé, porquanto existe a mesma relação entre Deus e nós, assim como judicialmente existe entre o doador e o recipiente. Alcançamos a justiça somente porque ela nos é comunicada pela promessa do evangelho, e assim discernimos que a possuímos pela fé.
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Já expliquei, e pretendo explicar mais plenamente, se porventura o Senhor mo permitir, quando tratar da Epístola de Tiago, como devemos conciliar a presente passagem com aquela epístola, como se houvesse entre elas alguma contradição. Cabe-nos simplesmente notar que aqueles a quem a justiça é imputada são justificados, visto que Paulo usa estas duas expressões como sinônimas. Concluímos daqui que a questão não é o que os homens increntemente são, e, sim, como Deus os considera, não porque pureza de consciência e integridade de vida são distintas do gracioso favor de Deus, mas porque, quando se busca a razão por que Deus nos ama e por que ele nos reconhece, é necessário que Cristo seja contemplado como Aquele que nos veste com sua própria justiça.

Sola Scriptura - João Calvino

Posted by Josemar Bessa on Sábado, Maio 27, 2006 , under | comentários (0)



As Institutas da Religião Cristã - Livro I, Capítulo 6

Para que Alguém Possa Chegar a Deus, O Criador,
É Necessário Que Tenha A Escritura Por Guia e Mestra.

O Verdadeiro Conhecimento de Deus está na Bíblia.


Portanto, se bem que o fulgor que se projeta aos olhos de todos, no céu e na terra, retire totalmente toda base para a ingratidão dos homens - e ainda que Deus, para envolver o gênero humano na mesma culpa, mostre a todos esboçada nas criaturas, sua Divina Majestade -, é necessário, contudo, além disso, acrescentar outro recurso melhor, que nos dirija retamente ao próprio Criador do universo. Por isso, não foi em vão que Deus acrescentou a luz de Sua Palavra para fazer-Se conhecido para a salvação do homem. E considerou dignos deste privilégio a todos aqueles aos quais quis trazer, para perto de Si, mais aproximada e intimamente.

Ora, porque Deus via a mente de todos ser arrastada, de um lado para outro, por constante e imutável agitação - depois de escolher os judeus para Si, como povo especial -, cercou-os por todos os lados, para que não se extraviassem com os demais povos. E não é em vão que ele nos mantém, por meio do mesmo remédio, no puro conhecimento de Si próprio, porque, de outra forma, se desfariam bem rapidamente até mesmo os que parecem mais firmes do que os outros. É exatamente como acontece com pessoas idosas ou enfermas dos olhos, e a todos quantos sofre de visão embaraçada: se pusermos diante delas até mesmo um volume vistoso, ainda que reconheçam estar ali algo escrito, mal poderão, contudo, ajuntar duas palavras. Ajudadas, porém, com o auxílio de óculos, essas pessoas começarão a ler de maneira eficiente. Assim a Escritura, reunindo na nossa mente, o conhecimento de Deus - que, de outro modo, seria confuso fazendo desaparecer a escuridão -, mostra-nos, com clareza transparente, o Deus Verdadeiro.

Constitui, pois uma dádiva singular o fato de Deus - para instruir a igreja -, servir-Se não apenas de mestres mudos, mas, ainda, abrir sua boca sacrossanta para não simplesmente proclamar que se deve adorar a Deus, mas também, ao mesmo tempo, declarar que Ele é esse Deus a quem devemos adorar. E não ensina Ele meramente aos eleitos que devem obedecer a Deus, mas mostra-Se como Aquele a Quem eles devem obedecer. Este modo de agir Deus tem mantido para com sua igreja, desde o princípio, de modo que, afora essas evidências comuns, Ele aplicasse também a palavra que é a marca direta e segura para reconhecê-LO.

Nem é para se duvidar de que Adão, Noé, Abraão e os demais patriarcas - em função deste recurso - tenham conseguido mais íntimo conhecimento de Deus, fato que, de certo modo, os destingue dos incrédulos. Não estou falando ainda da doutrina da fé, pela qual eles haviam sido iluminados para a esperança da vida eterna. Ora, para que pudessem eles passar, da morte para a vida, foi necessário que eles conhecessem a Deus não apenas como Criador, mas também como Redentor, pois eles chegaram a conhecer a Deus desses dois modos, seguramente, através da Palavra.

Ora, pela ordem, veio primeiro aquela modalidade de conhecimento mediante o qual lhes foi dado compreender quem é Deus, por meio de Quem o mundo foi criado e é governado. Em seguida, acrescentou-se, depois, a outra modalidade de conhecimento, interior, porque só esse conhecimento vivifica as almas mortas e só por ele se conhece a Deus não apenas como Criador do universo, Autor e Árbitro único de todas as coisas que existem, mas também na Pessoa do Mediador, como Redentor. Contudo, porque não tratei ainda da queda do mundo e da corrupção da natureza, não apresento ainda, aqui, o remédio.

Devem lembrar-se, portanto, os leitores de que não farei ainda considerações a respeito do pacto, mediante o qual Deus adotou, para Si, os filhos de Abraão, mas tratarei ainda daquela parte da doutrina pela qual os fiéis sempre foram apropriadamente separados das pessoas profanas, por aquela doutrina se fundamenta em Cristo (e, por isso, deve ser abordada na seção Cristológica); Agora, entretanto, só focalizarei como se deve aprender, da Escritura, que Deus como Criador, se distingue - por meio de marcas seguras - de toda a inventada multidão de deuses. Oportunamente depois, a própria seqüência dos fatos conduzirá ao estudo da redenção. Embora devamos derivar muitos testemunhos do Novo Testamento, e outros testemunhos da lei e dos profetas - onde se faz clara referência a Cristo -, sabemos que todos estes testemunhos visam mostrar que Deus, o Artífice do universo, se torna patente na Escritura e nela também se ensina o que devemos pensar a respeito de Deus, para que não busquemos, por caminhos tortuosos, alguma divindade incerta.


A Bíblia é a Palavra de Deus Escrita


Quer Deus Se tenha feito conhecido, aos patriarcas, através de visões ou oráculos, quer tenha dado a conhecer - mediante a obra e ministério de homens -, aquilo que, depois, transmitiria a pósteros pelas próprias mãos, está fora de dúvida que Deus gravou, no coração deles, a firme certeza da doutrina, de modo que fossem convencidos de que procedia de Deus o que haviam aprendido. Por isso Deus, pela Sua Palavra, tornou a fé segura para sempre, fazendo-a superior a toda mera opinião. Finalmente para que em perpétua continuidade de doutrina, a verdade permanecesse no mundo, sobrevivendo a todos os séculos, quis Deus que esses mesmos oráculos - que deixou em depósito com os Patriarcas -, fossem registrados como em públicos instrumentos. Com este propósito foi promulgada a Lei, à qual se acrescentaram, depois, como intérpretes, os Profetas.

Ora, se bem que foi múltiplo o uso da lei - como se verá no lugar mais adequado -, na verdade, foi dada especialmente a Moisés e a todos os profetas (a responsabilidade de) ensinar o modo de reconciliação entre Deus e os homens, fato que levou Paulo a dizer que Cristo é o fim da Lei (Rm.10:4). Contudo, torno a afirmar que, além da apropriada doutrina da fé e do arrependimento - que apresenta Cristo como Mediador -, a Escritura adorna, com sinais e marcas inconfundíveis, o Deus Único e Verdadeiro como Criador e Governador do mundo, para que Ele não seja confundido com a espúria multidão de deuses.

Portanto, por mais que ao homem sério convenha levar em conta as obras de Deus - um vez que foi ele colocado no belíssimo teatro do mundo para ser espectador da obra divina -, contudo, para ele poder aproveitá-la melhor, precisa dar ouvido à Palavra. Por isso, não é de admirar que os que nasceram nas trevas endureçam, mais e mais, a sua sensibilidade, visto que muito poucos se submetem docilmente à Palavra de Deus, de maneira a respeitar os seus limites; ao contrário, antes se gloriam em sua presunção.

Mas, para que a verdadeira religião resplandeça em nós, é preciso que ela seja o ponto de partida da doutrina celeste, pois não pode provar se quer o mais leve gosto da reta e sã doutrina, senão aquele que se tornar discípulo da Escritura. Pois o princípio do verdadeiro entendimento vem do fato de abraçar-mos, reverentemente, o Deus testifica de Si mesmo na Escritura. Da obediência à Palavra de Deus nascem não somente a fé consumada e completa, em todos os seus aspectos, mas também todo reto conhecimento de Deus. E neste aspecto, fora de toda dúvida, Deus, com singular providência, levou em conta os mortais em todos os tempos.


A Bíblia é o Único Escudo que Nos Protege do Erro


De fato, se refletirmos quão acentuado é a tendência da mente humana para esquecer a Deus, quão grande é a inclinação dos homens para com toda espécie de erro e quão pronunciado é o gosto deles para forjar, a cada instante, novas fantasiosas religiões, poderemos perceber como foi necessário a autenticação escrita da doutrina celeste, para que ela não desaparecesse pelo esquecimento, nem se desfizesse pelo erro, nem fosse corrompida pela petulância dos homens.

Deste modo, como está sobejamente demonstrado, Deus providenciou o auxilio de Sua Palavra para todos aqueles aquém quis instruir de maneira eficaz, pois sabia ser insuficiente a impressão de Sua Imagem na estrutura do universo. Portanto, se desejamos, com seriedade, contemplar a Deus de forma genuína, precisamos trilhar a reta vereda indicada na Sua Palavra.

Importa irmos à Palavra na qual, de modo vivo e real, Deus Se apresenta a nós em função de Suas obras, ao mesmo tempo em que essas mesmas obras são apreciadas, não sendo o nosso julgamento corrompido, mas de acordo com a norma da verdade eterna. Se nos desviarmos da Palavra, como ainda há pouco frisei, mesmo que nos esforcemos com grande empenho - pelo fato de a corrida ser fora da pista - jamais conseguiremos atingir a meta. Devemos pensar que o esplendor da face divina, que até mesmo o Apóstolo Paulo reconhece ser inacessível (I Tm.6:16), é para nós um labirinto emaranhado, no qual só podemos entrar se, através dele, formos guiados pelo fio da Palavra. Por isso, é preferível andar mancando, ao longo deste caminho a correr velozmente fora dele!

É por isso que, não poucas vezes, nos Salmos 93, 96, 97 e outros, ensinando que devemos tirar do mundo as superstições, para que floresça a religião pura, Davi representa a Deus como Aquele que reina, dando a entender, pelo termo reinar, não o poder de que Deus está investido e que exerce no governo universal da natureza, mas significando a doutrina pela qual reivindica, para Si, a legítima soberania, visto que jamais se pode arrancar os erros do coração humano, enquanto nele não se implantar o verdadeiro conhecimento de Deus.


A Revelação da Bíblia é Superior a Revelação da Criação


Por isso, onde o mesmo profeta afirma que os céus proclamam a glória de Deus, que o firmamento anuncia as obras das Suas mãos e que a regular seqüência dos dias e das noites apregoa a Sua majestade (Sl19:1-2), em seguida faz menção de Sua Palavra: "A Lei do Senhor" diz ele, "é perfeita e restaura as almas; o testemunho do Senhor é fiel e dá sabedoria aos simples; os mandamentos do Senhor são retos e alegram o coração; o preceito do Senhor é puro e ilumina os olhos" (Sl19:7-8). Ora, ainda que faça referência a outros usos da Lei, assinala ele, contudo, de modo geral, que Deus ainda que em vão convide a Si todos os povos, pela contemplação de Suas obras, oferece a Escritura como a única escola de Seus filhos.

Idêntica é a maneira como o Profeta fala no Sl.29, porque, depois de discursar a respeito da terrível voz de Deus - que sacode a terra com trovões, ventanias, chuvas, furacões e tempestades, fazendo tremer as montanhas e despedaçando os cedros - acrescenta, ao final, que no santuário de Deus se cantam louvores, visto que os incrédulos são surdos a todas as vozes de Deus, que ressoam nos ares! Da mesma maneira conclui ele outro Salmo, onde descreve as espantosas ondas do mar: "Confirmados foram os Teus testemunhos; a santidade é, para sempre, a formosura do Teu templo"(Sl.93:5). Daí vem também o que Cristo disse à mulher samaritana (Jo.4:22): que a gente dela e os outros povos adoravam o que desconheciam; que só os judeus prestavam culto ao Deus verdadeiro!

Ora, já que a mente humana, por causa da sua estupidez, não pode chegar até Deus, a menos que seja guiada e sustentada por Sua Sagrada Palavra, com exceção dos judeus (que eram guiados pela Palavra) todos os mortais - pelo fato de buscarem a Deus sem a Palavra -, tiveram de vagar na estultície e no erro!

A Teologia de Calvino

Posted by Josemar Bessa on Domingo, Maio 21, 2006 , under | comentários (0)



João Calvino: Teologia (1ª parte)


* As concepções teológicas de Calvino encontram-se em seis categorias de escritos do reformador:

1. As Institutas: Calvino produziu ao todo oito edições do texto latino (1536-1559) e cinco traduções para o francês. A 1ª edição tinha apenas seis capítulos; a última totalizou oitenta. Equivale em tamanho ao Antigo Testamento mais os Evangelhos sinóticos e segue o padrão geral do Credo dos Apóstolos. Visava ser um guia para o estudo das Escrituras.

Livro I: O Conhecimento de Deus, o Criador: o duplo conhecimento de Deus, as Escrituras, a Trindade, a criação e a providência

Livro II: O Conhecimento de Deus, o Redentor: a queda e a corrupção humana, a Lei, o Antigo e o Novo Testamento, Cristo o Media- dor - sua pessoa (profeta, sacerdote, rei) e sua obra (expiação)

Livro III: A Maneira Como Recebemos a Graça de Cristo, Seus Benefícios e Efeitos: fé e regeneração, arrependimento, vida cristã, justificação, predestinação, ressurreição final.

Livro IV: Os Meios Externos Pelos Quais Deus nos Convida Para a Sociedade de Cristo: a igreja, os sacramentos, o governo civil1. Comentários: são um complemento das Institutas. Calvino escreveu comentários de todos os livros do Novo Testamento, exceto 2 e 3 João e Apocalipse, e sobre o Pentateuco, Josué, Salmos e Isaías.

2. Sermões: Calvino expunha sistematicamente os livros da Bíblia. Ele costumava pregar sobre o Novo Testamento aos domingos e sobre o Velho Testamento durante a semana. Seus sermões eram anotados taquigraficamente por um grupo de leais refugiados franceses. A série Corpus Reformatorum contém 872 sermões de Calvino.

3. Folhetos e tratados: temas apologéticos (contra católicos e anabatistas) e gerais.

4. Cartas: escritas a outros reformadores, soberanos, igrejas perseguidas e protestantes encarcerados, pastores, colportores. 6. Escritos litúrgicos e catequéticos: confissão de fé, catecismo, saltério.

I) A Perspectiva Teológica de Calvino.

1. O conhecimento de Deus:* A verdadeira sabedoria consiste de dois elementos: o conhecimento de Deus e o conhecimento de nós mesmos. Daí a importância da revelação. Não podemos conhecer a Deus em sua essência, mas somente na medida em que ele se dá a conhecer a nós. * Existe um duplo conhecimento de Deus: como criador e como redentor. Todo ser humano é essencialmente uma criatura religiosa, tendo em si a "semente da religião." Deus se revela não só através desse senso inato de si mesmo, mas também através das maravilhas da criação. * Esse conhecimento de Deus revelado na natureza exige uma resposta humana, seja de piedade ou idolatria. O fim último da piedade não é a salvação individual, mas a glória de Deus.

2. A condição humana:* O pecado torna a revelação natural totalmente insuficiente para o correto conhecimento de Deus. Ela tem somente uma função negativa - deixar os seres humanos inescusáveis por sua idolatria. O ser humano encontra-se perdido como que em um labirinto. A imagem de Deus ainda permanece nele, mas foi totalmente distorcida e desfigurada.

3. O Deus que se revela:* Todo verdadeiro conhecimento de Deus decorre do fato de que Deus, em sua misericórdia, houve por bem revelar-se. Calvino usa aqui o conceito de "acomodação" ou adaptação. Deus desce ao nosso nível, adapta-se à nossa capacidade. Vemos isso na encarnação, nas Escrituras, nos sacramentos e na pregação. * Nas Escrituras, Deus balbucia a nós, fala-nos como uma ama fala a um bebê. Outra figura: a Bíblia é como óculos divinos para os que são espiritualmente míopes. Assim, a verdadeira teologia é uma reverente reflexão sobre a revelação escrita de Deus; não deve pois perder-se em "vãs especulações," mas ater-se às Escrituras.

4. A doutrina das Escrituras:* A Bíblia é a Palavra de Deus inspirada, revelada em linguagem humana e confirmada ao crente pelo testemunho interno do Espírito Santo. Calvino tratava o texto biblico tanto reverentemente quanto criticamente (por exemplo, Atos 7.14 e Gn 46.27). A capacidade de reconhecer a Bíblia como a Palavra de Deus não depende de provas, mas é um dom gratuito do próprio Deus. * Calvino afirma a unidade entre a Palavra e o Espírito contra dois erros opostos. Os católicos subestimavam o papel da iluminação ao subordinarem as Escrituras à igreja. Calvino, como Lutero, afirmou que as Escrituras foram o ventre do qual nasceu a igreja, e não vice-versa. Por outro lado, os "fanáticos" concentravam-se de tal modo no Espírito que subestimavam a Palavra escrita. * Toda a teologia de Calvino foi elaborada dentro destes parâmetros: a objetividade da revelação divina nas Escrituras e o testemunho iluminador do Espírito Santo no crente. A verdadeira teologia deve manter-se dentro dos limites da revelação. * A função principal das Escrituras é a nossa edificação, capacitando-nos a ver o que de outro modo seria impossível. Seu propósito é revelar o que precisamos saber sobre Deus e nós mesmos.

II) O Deus Que Age.

1. O Deus triúno:* Calvino deu mais atenção à doutrina da trindade que Lutero ou Zuínglio. Ele basicamente sustentou a doutrina da igreja antiga de que Deus é uma única essência que subsiste em três pessoas distintas: Pai, Filho e Espírito Santo. Ele advertiu quanto a especulações sobre o mistério da essência divina e recusou-se a torcer a Escrituras para sustentar essa doutrina. * Como no caso de Atanásio, no quarto século, a Trindade era fundamental por ser um testemunho da divindade de Jesus Cristo e, assim, da certeza da salvação realizada por ele. Somente alguém que era verdadeiramente Deus poderia redimir os que estavam totalmente perdidos. * A fé na trindade é confessada na liturgia do batismo e na doxologia, não para definir plenamente o ser de Deus, mas somente para permanecer em silêncio diante do mistério da sua presença (Agostinho).

2. Criação:* A seguir, ainda no Livro I das Institutas, Calvino descreve a atividade de Deus em relação ao mundo na criação e na providência. O mundo criado é o "deslumbrante teatro" da glória de Deus. Depois que as pessoas são iluminadas pelo Espírito Santo e têm o auxílio dos "óculos" das Escrituras, a criação pode fornecer um conhecimento de Deus mais lúcido e edificante (teologia da natureza), fortalecendo a fé dos crentes. * Deus criou o mundo a partir do nada (ex nihilo). O mundo foi criado para a glória de Deus, mas também para o benefício da humanidade. Os crentes devem contemplar a bondade de Deus em sua criação de tal modo que seus próprios corações sejam despertados para o louvor (Jonathan Edwards).

3. Providência:* Calvino reflete acerca do caráter precário e incerto da vida humana sobre a terra. Sua doutrina da providência não reflete um otimismo piedoso, mas resulta de uma avaliação realista das vicissitudes da vida e da ansiedade que elas produzem. * Ele critica duas concepções errôneas: o fatalismo e o deísmo. A doutrina estóica do destino pressupõe que todos os eventos são governados pela necessidade da natureza. Calvino pondera que, na concepção cristã, o "regente e governador de todas as coisas" não é uma força impessoal, mas o Criador pessoal do universo, que em sua sabedoria decretou desde a eternidade o que iria fazer e agora em seu poder realiza o que decretou. * Ele também combate a idéia de que Deus fez o mundo no princípio, mas depois o deixou entregue a si mesmo. Como mostram as Escrituras, Deus está contínua e eficazmente envolvido no governo da sua criação. Assim, a providência é uma espécie de continuação do processo criador, tanto nos grandes como nos pequenos eventos. * Essa ênfase na atividade imediata e direta de Deus no mundo leva Calvino a rejeitar a teoria traducianista da origem da alma, a idéia de que a alma é transmitida de geração a geração pelo processo da procriação humana (Lutero). Calvino cria que, toda vez que uma criança é gerada, Deus cria uma nova alma ex nihilo. * Apesar de sua interação direta com o mundo, Deus também pode usar causas secundárias para realizar a sua vontade. Ele pode até mesmo usar instrumentos maus (como Satanás e suas hostes), transformando o mal em bem. * Se Deus decreta cada evento, onde fica a responsabilidade humana? Calvino responde que a providência de Deus não atua de modo a negar ou tornar desnecessário o esforço humano. As próprias ações humanas são um dos meios pelos quais Deus realiza os seus propósitos. * O governo divino de todos os eventos não torna Deus o autor do pecado? Assim como Lutero, Calvino distingue entre a vontade revelada e a vontade oculta de Deus. Ao enviar Cristo para a cruz, a Bíblia diz que Herodes e Pilatos estavam cumprindo o que Deus havia determinado (Atos 4.27-28). Ao mesmo tempo, eles também estavam violando a vontade expressa de Deus revelada em sua lei. * Vez após vez Calvino apela ao mistério e incompreensibilidade das ações de Deus. O problema do mal é tão difícil precisamente porque não podemos entender como as tragédias da vida contribuem para a maior glória de Deus. * A fé verdadeira percebe que, por trás dos sofrimentos, que em si mesmos são maus, existe um Pai de justiça, sabedoria e amor que prometeu nunca abandonar-nos. Nessas questões, não se pode submeter Deus aos padrões humanos de julgamento.

III) O Cristo Que Salva.

1. A doutrina do pecado:A partir do Livro II das Institutas, Calvino trata de Deus, o Redentor. Calvino geralmente é visto como o autor de uma concepção totalmente pessimista do ser humano. Todavia, o reformador sempre mostrou profunda apreciação pelas realizações humanas na ciência, literatura, arte e outras áreas, atribuindo-as à graça comum de Deus. A imagem de Deus no ser humano está terrivelmente deformada, mas não inteiramente apagada. " Todavia, as muitas virtudes e dons da natureza humana nada valem para alcançar a justificação. Para entender plenamente a natureza humana, é preciso olhar para Jesus Cristo, o verdadeiro ser humano. " Calvino define o pecado original como "uma depravação e corrupção hereditária de nossa natureza, difundida em todas as partes da alma, que primeiramente nos torna sujeitos à ira de Deus e depois também produz em nós aquelas obras que a Escritura chama de 'obras da carne'" (Inst., 2.1.8). " Vale destacar dois aspectos: (a) não podemos simplesmente culpar Adão por nossa condição pecaminosa; o pecado de Adão é também o nosso pecado; (b) o pecado original não se limita a uma dimensão da pessoa humana, mas permeia toda a vida e a personalidade. " Pecado não é somente o ato, mas a inclinação da própria natureza humana em sua condição decaída. Cometemos pecados porque somos pecadores. A essência do pecado de Adão, que se repete em diferentes graus nos seus descendentes, é orgulho, desobediência, incredulidade e ingratidão. Somente a consciência da nossa total pecaminosidade pode preparar-nos para ouvir as boas novas da libertação do pecado através de Jesus Cristo.

2. A pessoa de Cristo:* A teologia de Calvino é profundamente cristocêntrica e o tema que domina a sua cristologia não é o conhecimento de Cristo em sua essência, mas em seu papel salvífico como Mediador. A revelação de Deus em Cristo é o supremo exemplo da sua acomodação à capacidade humana. Precisamos de um Mediador tanto por sermos pecadores quanto por sermos criaturas. * Cristo como Mediador é verdadeiro Deus e verdadeiro homem (1 Tm 3.16). Ele é o Verbo eterno de Deus gerado do Pai antes de todas as eras, que, em sua encarnação, ocultou a sua divindade sob o "véu" da sua carne. * Uma formulação peculiar da cristologia de Calvino é o chamado extra Calvinisticum: a noção de que o Filho de Deus tinha uma existência "também fora da carne." Ver Institutas 2.13.4.

3. A obra de Cristo:* Mais importante que conhecer a essência de Cristo é conhecer com que propósito ele foi enviado pelo Pai. Calvino explicou a obra de Cristo em conexão com o seu tríplice ofício de Profeta, Rei e Sacerdote, todos os quais eram ungidos no Antigo Testamento, prefigurando o Messias. * Como Profeta, ele foi ungido pelo Espírito para ser arauto e testemunha da graça de Deus, fazendo-o através do seu ministério de ensino e pregação. Na qualidade de Rei, Cristo atua como o vice-regente do Pai no governo do mundo; uma dia sua vitória e senhorio se manifestarão plenamente. Em seu ofício sacerdotal, ele foi um Mediador puro e imaculado que aplacou a ira de Deus e fez perfeita satisfação pelos pecados humanos. * Calvino observa que Deus poderia resgatar os seres humanos de outra maneira, mas quis fazê-lo através do seu Filho. Ele dá ênfase não tanto à justiça de Deus, mas à sua ira e amor, ambas ilustradas na obra de Cristo. Não somente a morte de Cristo tem efeito redentor, mas toda a sua vida, ensinos, milagres e sua contínua intercessão nos céus, à destra do Pai. A obra expiatória de Cristo tem também um aspecto subjetivo, pelo qual somos chamados a uma vida de obediência.

Calvino e Serveto

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Augustus Nicodemus Lopes


Gerações sempre estão passando a limpo pontos obscuros da história de seus antepassados. Assistimos, no momento, a tentativa de vários grupos alemães de trazer a lume aspectos do envolvimento do povo alemão no Holocausto que serviriam para amenizar a sombra que paira sobre a nação pelo assassínio de milhares de judeus durante a Segunda Guerra. Recentemente, o Dr. Frans Leonard Schalkwijk, em sua obra Igreja e Estado no Brasil Holandês, lançou luz sobre a figura do "traidor" Calabar, demonstrando que a "traição" foi, na verdade, sua conversão ao Evangelho pregado pelos holandeses reformados. Quem sabe o presente artigo possa ajudar a passar a limpo alguns aspectos do tristemente famoso episódio envolvendo João Calvino e a execução na fogueira do médico espanhol Miguel Serveto, condenado por heresia contra a Trindade, em 1553, em Genebra.
Preciso dizer desde o início que minha intenção não é justificar a participação de Calvino no incidente. Não posso concordar com a pena de morte como castigo para a heresia, muito menos se o método de execução é queimar vivo o faltoso. Até mesmo os maiores heróis do passado tomaram decisões e fizeram declarações que nos causam, séculos depois, estranheza e discordância. Calvino não é nenhuma exceção. Meu alvo neste artigo não é defendê-lo como se ele fosse sem defeitos. É claro que ele os tinha. É claro que ele errou. Mas penso que, particularmente no caso envolvendo a execução de Serveto por heresia em Genebra, durante o tempo em que Calvino ali ministrava, nem sempre vozes se têm levantado para apresentar outra versão dos fatos, versão esta enraizada em documentos confiáveis. Episódios do passado devem ser entendidos à luz dos conceitos e valores da época em que ocorreram. Meu alvo é expor alguns deles que estavam vigentes na época de Calvino, bem como trazer dados freqüentemente ignorados sobre o episódio. Não podemos justificar Calvino por pedir a pena de morte para Serveto, mas podemos entender os motivos que o levaram a isto.
Testemunhas que viveram em Genebra logo após a cidade haver abraçado a Reforma protestante, viram-na como "o espelho e modelo de verdadeira devoção, um abrigo para os refugiados perseguidos por sua fé, um lugar seguro para treinar e enviar ao estrangeiro soldados do Evangelho e ministros da Palavra." Logo que Genebra abraçou a Reforma oficialmente e cortou suas lealdades para com o bispo e duque de Savóia, a cidade foi inundada por refugiados de toda a Europa. Da noite para o dia Genebra se tornou, depois de Wittenberg, Zurique e Estrasburgo, um monumento da fé protestante.
Apesar dessas observações feitas por pessoas que viveram em Genebra na época destes acontecimentos, as impressões que recebemos de nossos professores de escola secundária provavelmente têm pouco, ou nada, em comum com o depoimento destas testemunhas oculares. Segundo Michael Horton, "abundam imagens de um tirano vestido de toga preta, organizando o equivalente no século XVI de uma polícia secreta moderna para assegurar que ninguém, a qualquer hora ou em qualquer lugar, estivesse se divertindo." É de admirar que, apesar dos testemunhos em contrário, prevaleceu na opinião pública a idéia de que Genebra era uma teocracia e Calvino era seu papa!
Em 25 de maio de 1536 os cidadãos de Genebra decidiram aderir à Reforma protestante. Mas isso era só o começo. Sem liderança qualificada, Genebra estava à beira do colapso civil e religioso. O que a nova república precisava era de um jovem visionário. Calvino chegou em Genebra fugindo das autoridades de Paris. Ele havia inicialmente se encaminhado para a cidade reformada de Estrasburgo, onde Martin Bucer estava pregando. Porém, o rei francês e o imperador alemão estavam envolvidos em uma guerra que bloqueou o caminho para a cidade. Frustrado, mas destemido, Calvino tomou um desvio para Genebra durante a noite. De lá não passaria. Ficou, a pedido insistente de Farel, líder protestante da cidade, e depois de algum tempo foi designado pastor da igreja de São Pedro, a catedral de Genebra. Tensões entre Calvino, Farel e o Conselho Municipal com respeito à celebração da Ceia do Senhor, as atribuições da Igreja e do Estado e o exercício da disciplina, acabaram por levar o Conselho a expulsar Calvino de lá. E ele seguiu, exilado, para Estrasburgo.
Ali (1538-41), Calvino sentiu-se como se estivesse no céu. Martin Bucer tornou-se o seu mentor. Calvino assumiu o pastorado da igreja reformada francesa da cidade. Durante este tempo, ele publicou alguns dos seus trabalhos mais notáveis; ali casou-se com Idelette de Bure, a viúva de um amigo anabatista. Calvino estava muito feliz ali, mas uma vez mais Genebra o chamou.
O Conselho municipal escreveu a Calvino pedindo ajuda contra o ensino do Cardeal Sadoleto, que procurava chamar Genebra de volta para a Igreja Católica. Pediu desculpas e, com mais um apelo de Farel, convenceu Calvino a voltar. Dr. McGrath, historiador da Universidade de Oxford, demonstra como o mito do "grande ditador de Genebra" está enraizado em conceitos populares difundidos especialmente pelas obras de Bolsec e Huxley, que fizeram afirmações sem ter qualquer fato histórico que os apoiasse, mas que não obstante acabaram por moldar a visão de Calvino que hoje prevalece em muitos meios evangélicos. Calvino não tinha qualquer acesso à máquina decisória do Conselho. Ele mesmo não podia votar e nem concorrer a qualquer cargo político eletivo. E mesmo quanto aos negócios da Igreja, Calvino quase não tinha qualquer poder decisório.
A 25 de outubro de 1553 o Conselho municipal emitiu o decreto que condenava Miguel Serveto a ser queimado na estaca por heresia. De fato, foi Calvino quem o denunciou e quem pediu a pena de morte para ele. Vejamos agora o contexto em que isso aconteceu.
1. A pena de morte por heresia era prática geral da Idade Média.
2. Serveto chegou a Genebra fugido de Viena e da França, onde havia sido condenado à morte pela Igreja Católica, sob a acusação de heresia contra a Trindade.
3. Serveto foi a Genebra apesar dos avisos de Calvino de que isto poderia custar-lhe a vida.
4. Chegando em Genebra, se fez conhecido de Calvino em público. Foi preso e, embora Calvino fosse um teólogo e advogado treinado (havia mesmo sido empregado pelo Conselho municipal para elaborar a legislação relativa à previdência social e ao planejamento dos serviços de saúde pública), mesmo assim não foi o promotor do processo eclesiástico contra Serveto. Lembremos que ele não tinha nem os mesmos direitos de um cidadão comum!
5. Calvino aceitava a pena de morte, não somente para os que matavam o corpo de seus semelhantes, mas também para os que lhes matavam a alma através do veneno mortal do erro religioso.
6. Por outro lado, não foram as convicções teológicas de Calvino que o levaram a isto. Não se pode culpar as suas convicções, particularmente sua firme crença na soberania de Deus, pela execução de Serveto.
7. Calvino havia se correspondido com Serveto e há alguma evidência nessas cartas de que ele tinha tentado até mesmo encontrar-se clandestinamente com o anti-trinitário para tentar convencê-lo do seu erro.
8. Calvino estava nessa época no maior calor de suas batalhas contra o Conselho municipal. O grupo dos Libertinos exercia dentro do Conselho forte oposição a ele. Caso ele tivesse pedido a execução de Serveto, a reação provável do Conselho teria sido negar.
9. Há outro fato a ponderar. Quando foi dada a Serveto a escolha da cidade onde seria julgado, ele escolheu Genebra. A outra opção era Viena, de onde viera fugido. Por alguma razão, ele deve ter pensado que suas chances de sobrevivência eram melhores em Genebra. Porém, o Conselho municipal da cidade, conduzido pela facção dos Libertinos, totalmente contrários a Calvino, estava determinado a mostrar que Genebra era uma cidade reformada e comprometida com os credos. E assim, Serveto foi condenado a ser queimado vivo.
10. Calvino suplicou ao Conselho que executasse Serveto de uma maneira mais humanitária do que o ritual tradicional de queima de hereges. Mas, claro, o Conselho municipal recusou o argumento de Calvino. Farel visitou Calvino durante a execução. Calvino estava tão transtornado, como foi mais tarde comunicado, que Farel partiu sem mesmo dizer adeus.
11. A execução de Serveto foi aprovada por todas as demais cidades-estados reformadas e por todos os reformadores. Lutero e Zwinglio já havia morrido, mas certamente haveriam concordado. O próprio Lutero havia consentido na execução de camponeses revoltosos. Os demais, Bullinger, Beza, Bucer, etc., todos deram apoio irrestrito a Calvino.
Estes são alguns fatos que devemos lembrar antes de chamarmos Calvino de "assassino." A propósito, durante este mesmo período trinta e nove hereges foram queimados em Paris, vítimas da Inquisição católica, que estava sendo aplicada com rigor na Espanha, Itália e outras partes de Europa. Apesar do fato de que muitos que não eram ortodoxos buscaram (e encontraram) refúgio em Genebra, fugindo das autoridades católicas, Serveto foi o único herege a ser queimado naquela cidade durante a distinta carreira de Calvino.
Até mesmo os judeus foram convidados pelas cidades-estados reformadas para se abrigarem nelas, fugindo da Inquisição. O puritano Oliver Cromwell, líder doParlamento inglês por um período, mais tarde tornou a Inglaterra um abrigo seguro para os dissidentes religiosos, e especialmente para os judeus. O mesmo ocorreu nos Países Baixos (atual Holanda). E mesmo hoje, Genebra e Estrasburgo, outrora reformadas, figuram no topo da lista como cidades que se destacam em termos de direitos humanos e relações internacionais.
O que muitos ignoram é que Calvino era um pastor atencioso, que visitava pacientes terminais de doenças contagiosas no hospital que ele mesmo havia estabelecido, embora fosse advertido dos perigos de contágio. Foi ele quem instou o Conselho a afiançar empréstimos a baixos juros para os pobres. Foi ele quem defendeu a educação universal e gratuita para todos os habitantes da cidade, como Lutero e outros reformadores tinham feito. Sua preocupação diária em 1541 era como dar a Genebra uma universidade.
Eis aí o famoso "tirano de Genebra"! Penning escreve que, no fim da vida de Calvino, ao ser visto nas ruas da cidade, os moradores diziam: "Lá vai o nosso mestre Calvino." Em 10 de março de 1564, o Conselho decretou um dia de oração pela saúde de Calvino e o reformador recuperou-se durante um tempo. Na Páscoa desse ano, Calvino foi levado à igreja carregado em sua cadeira para participar da Ceia do Senhor, devido ao seu extremo estado de fraqueza. Quando a enorme congregação o viu chegar assim, começou a lamentar-se e a chorar. No sábado, 27 de maio, Calvino morreu aos cinqüenta e cinco anos de idade.
Quando à noite as notícias da sua morte se espalharam pela cidade, "Genebra lamentou-se como uma nação lamenta quando perde seu benfeitor," escreve Penning. A execução de Serveto permanece como uma mancha na história da distinta carreira de Calvino em Genebra. Usá-la, porém, para denegrir sua imagem, para atacar a sua teologia e para envergonhar os calvinistas, é expediente preconceituoso de quem não deseja ver todos os fatos.